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toalha da saudade – BATATINHA – 1976

20 set, 2016 | Álbuns | 0 Comentários

BATATINHA é um dos nomes mais queridos da cidade de Salvador.
Ele é um lindo poeta.
Em sessenta e poucos, quando me mandei para Salvador, ouvi o trecho de um samba maravilhoso cantado por um personagem do filme “Barravento” de Glauber Rocha.
Era O primeiro contato que eu tinha com BATATINHA.
Daí em diante meu amor cresceu.
Hoje eu fico feliz de saber que BATATA vai poder ser ouvido em long-play individual.
Quero que muita gente ouça a doçura de sua voz.
Acho que assim o Brasil fica mais.
CAETANO VELOSO

1

Continental 1.07.405.082, LP
por.: Marcelo Oliveira

As lâminas de chumbo eram vomitadas por linotipos, vindas, em sua maioria, do início do século. Tardas e barulhentas, compunham os exemplares quase centenários do Diário de Notícias, ainda na rua Portugal, no Comércio. Depois de sonhar com aumentos crescentes do salário aviltado em sua categoria profissional e acordar, repentinamente, de sobre as bobinas gigantescas que a impressora, cansada de engolir tempos de pauta, fazia que se sumissem entre as ferragens, um crioulo grisalho, ainda espantado com a chegada antecipada da madureza, examina, atrás dos óculos de aros quebrados, as dezenas de provas gráficas.
Seu nome: Oscar da Penha. Sua função: prelista-emendador Seu apelido de amor, com a cidade o reconhece, deu-lhe um mulato boêmio, inserido na história da música popular e das crônicas brasileiras: Antônio Maria. Tal inventiva ocorreu quando, vindo dos arraiais do Pina, no Recife, para assumir a Direção Artística da PRA-4 (Rádio Sociedade da Bahia), apresentou-o, para interpretação de suas primeiras composições, no Teatro Guarany, em programa denominado Campeonato do Samba. Passou a ser o grande mito dos pontos populares do Pelourinho, habitante que era do Centro Operário e, posteriormente, da barroca Rua das Flores, de cornijas azulejadas no alto dos casarões. Fiel a esse território de vida, mesmo casado, não o abandonou, pois que foi morar no Beco do Mota, nas dependências térreas de um sobrado de dois andares, pintado em amarelo, cheios de barbearias e botecos, com nomes marcados pela arte de um pintor do povo de nome Dario.
Antes de sair para a Imprensa Oficial, na Praça Muniçipal, onde repetia a mesma tarefa do Diário, batia, três vezes, na porta larga da “Quitanda de Dedeco”, em ritual fetichista, á moda do baiano da multidão, tomava uma infusão de milome, de páu-de-resposta, dandá ou capim santo e ensaiava os primeiros sambas do dia. Muitos desses cantos sofridos da autobiografia batatiniana ví-os nascerem do balcão de Dedeco. Só a mesa de dominó sabatina poderia retirar ao mundo de ritmos, em cor-existência, esse crioulo terno, resignado às escassas das doações da vida.
Nessas oportunidades um dos seus nove filhos, ainda de olhos interrogativos – trazia à quitanda as pamonhas de milho e côco, especialidade da culinária de D. Martha, a esposa e companheira arredia, em seu permanente estado de esperança.
Com os primeiros compactos debaixo do braço magro, forçando que a humildade os mostrasse aos amigos ligados ao rádio, ao teatro e ao jornalismo, encontrei-o na “Cantina da Lua”, ao lado do engraxate Leal, quando, batucando num banco, cantou para mim o seu samba, dos mais comovidamente humanos dos seus últimos dez anos de produção: Direito de Sambar. Os caminhos da música lhe foram muito difíceis. Porque tendo de carregar, nas mãos cheias de calos, como emendador, as manchetas do sofrimento do Mundo teria de dar, como sempre o fez, parceria a nem sempre escrupulosas figuras do meio artístico que gravita em derredor das gravadoras.
Retiraram-no desse suplício Jamelão, Bethânia, Tião Motorista e Caetano Veloso, gravando, com a responsabilidade de seu trabalho, os sambas e as marchas mais marcantes da musicologia de Batatinha. Assim, não lhe examino (porque leigo em sua seara) as filigranas dos versos que faz conforme a linguagem de sua gente; nem a intimidade da melodia. Mostro-lhes o mundo de um baiano simples, puro, sem compromissos artesanais, sem ânsia de assimilação do comportamento artístico de outros compositores de sua origem e de tempo. O mundo que ele mesmo recria, em sua experiência quotidiana. Daí o respeito com que recebemos o que desse mesmo mundo Batatinha devolve aos brasileiros em forma de samba.

Jehová de Carvalho
contracapa do LP

FACE A
1. TOALHA DA SAUDADE
(Batatinha-J. Luna)
2. ROSA TRISTEZA
(Edil Pacheco-Batatinha)
3. HORA DA RAZÃO
(Batatinha-J. Luna)
4. BABÁ DE LUXO
(Bob Laô-Batatinha)
5. MARTA
(Batatinha)
6. ONDAS DO MAR
(Mapin-Batatinha)

FACE B
1. A SORTE DO BENEDITO
(Batatinha)
2. FORA DO MEU SAMBA
(Batatinha)
3. ESPERA
(Batatinha-Ederaldo Gentil)
4. IRONIA
(Batatinha-Ederaldo Gentil)
5. MARCA NO PÉ
(Carlos Conceição-Batatinha)
6. INDECISÃO
(Batatinha)

FICHA TÉCNICA

PRODUTOR Discos Continental
PRODUTOR EXECUTIVO Ramalho Neto
PRODUTOR ARTÍSTICO Reginaldo Bessa
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO Antonio Brito – Salvador
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO Jorge Corrêa – Rio
ARRANJOS E REGÊNCIAS Reginaldo Bessa
STÚDIOS Somil – 16 canais – Rio
ARTE CAPA Paolillo e Equipe
TÉCNICOS DE GRAVAÇÕES Deraldo/Luiz Paulo/Carlinhos e Celinho

* P.S. Relançado em 2002 pela Warner Music Brasil – 092746578-2, CD (Série Warner Arquivos)