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Alegria Minha Gente (Serra dos Meus Sonhos Dourados) – Dona Ivone Lara, 1982
WEA - 20.077, LP
por.: Marcelo Oliveira / 01 abr, 2017
Categoria(s).: Álbuns

Em 1982, apenas quatro anos depois de lançar o seu primeiro disco solo, Dona Ivone já era chamada pela imprensa e pelo meio musical de Primeira-Dama do Samba. Segundo o seu parceiro Hermínio Bello de Carvalho, o apelido se justificava pelo fato de a artista ser a primeira a cantar, a compor, a tocar um instrumento (o cavaquinho, ainda que ela não fosse nenhum virtuose) e a dançar aquele miudinho tão particular.

Toda essa comunhão de talentos e habilidades de Ivone rendia alguns frutos. E um deles era ela ter o privilégio de poder trabalhar com os melhores produtores de samba do país: Adelzon Alves, nos seus dois primeiros álbuns, Sérgio Cabral, no terceiro, e J.B. Botezelli, o popular Pelão, que havia produzido o disco Música Popular do Centro-Oeste/Sudeste, em que a artista interpretara “Amor Aventureiro” (Mano Décio da Viola/Silas de Oliveira) e “Andei Para Curimá”, dela mesma. Agora, no quarto LP de Dona Ivone, Alegria Minha Gente (Serra dos Meus Sonhos Dourados), novamente pela WEA, a função caberia ao competentíssimo Rildo Hora.

O produtor, que naquela época já havia tomado parte em grandes sucessos de Martinho da Vila e Beth Carvalho, definiu qual seria o plano básico do repertório logo no primeiro encontro com a compositora. Além do já habitual equilíbrio entre composições apenas da artista e dela em parceria com Délcio Carvalho, o álbum apresentaria sambas que Ivone ouvia na sua juventude na escola Prazer da Serrinha.

No azeitado pot-pourri “Sambas de Terreiro (Prazer da Serrinha)”, foram gravadas sete canções, uma mais bonita que a outra, de nomes como Carlinhos Bem-Te-Vi, Manula, Paco, Antenor Bexiga, Mestre Fuleiro e Dona Ivone. O LP, outra pepita da discografia da sambista, trazia também duas composições só dela, a quentíssima “Roda de Samba Pra Salvador” e o partido-alto “Preá Comeu”, além de “Uma Rosa Pro Cartola”, homenagem dos craques Wilson Moreira e Nei Lopes ao ícone mangueirense. E ainda havia espaço para um dos sambas mais bonitos feitos pela dupla Ivone/Délcio, “Nasci Para Sonhar e Cantar”. Tudo isso interpretado por instrumentistas do peso de Raphael Rabello (violão de sete cordas), Joel Nascimento (bandolim), Mané do Cavaco, Bebeto Castilho (baixo) e Luciana Rabello (cavaquinho), entre outros.

Lucas Nobile

A primeira pessoa que me falou sobre D.Ivone Lara, foi Sérgio Cabral, em 1974. A gente estava fazendo um samba quando ele me disse – “Parceiro, você precisa ouvir a maravilhosa compositora da ala das baianas do Império Serrano, parceira do Silas, que eu e Albino (Pinheiro) estamos apresentando no show do Paiol (Boite de Ipanema)”. Fizemos uma pausa e ele continuou o papo por mais algum tempo, tentando passar para mim a emoção que sentira ao ouvir D. Ivone Lara cantar e tocar cavaquinho encantando a todos com a sua simplicidade e com o passo miudinho nas quebradas de um partido alto. Fiquei convencido. Meses depois, dirigindo a gravação de um disco de Martinho da Vila, tive o prazer de conhecê-la. Estávamos ensaiando o coro para o LP do batuqueiro (ele havia feito a arregimentação), quando Martinho me pediu maior atenção para urna pastora bonita, afinada e de sorriso franco. Satisfeito, fazendo parecer que me trazia um presente, apresentou-me D. Ivone Lara com muita simpatia. Procurei conhecer os seus sambas e como não poderia deixar de ser, mais tarde, gravei vários deles nos discos que tive oportunidade de produzir. Ficamos amigos, trabalhamos em vários LP’s (ela é ótima corista) e até viajamos para o exterior fazendo shows. Este ano, ao me tornar free-lancer, recebi convite da WEA (por intermédio do Heleno de Oliveira) para fazer este álbum da “baiana-tiê” (Alô Adelzon Alves). Ouvi suas excelentes gravações anteriores e conclui que seria bom o trabalho apresentar com maior veemência algumas músicas do prazer da Serrinha, escola anteriormente chamada Cabelo de Mana e que ajudou a formar o Império Serrano. Este material magnífico, D.Ivone Lara já sabia, cantava desde menina e a sua intimidade com os temas abordados me permitiu fazer um disco integrado na sua realidade, como o samba deve ser, simples, bonito e principalmente brasileiro.

Rildo Hora
(texto na contracapa do LP)

LADO A

1. RODA DE SAMBA PRA SALVADOR
(D.Ivone Lara)

2. PRÉA COMEU
(D.Ivone Lara)

3. O SAMBA NÃO PODE PARAR
(Fabrício do Império e Paulo George)

4. LAMENTO DO NEGRO
(Caboré, Onofre e Heitor dos Prazeres Filho)

5. NASCI PRA SONHAR E CANTAR
(D.Ivone Lara e Delcio Carvalho)

LADO B

1. SAMBAS DE TERREIRO (PRAZER DA SERRINHA)
SERRA DOS MEUS SONHOS DOURADOS (Carlinhos Bem-te-vi)
ORGIA (Manula)
ALEGRIA, MINHA Gente (Paco)
EU JÁ JUREI (Antenor Bexiga)
ME ABANDONASTE (Mestre Fuleiro e D.Ivone Lara)
MEU DESTINO É SOFRER (D.Ivone Lara)
CHORAR NÃO RESOLVE (Manula)
SERRA DOS MEUS SONHOS DOURADOS (Carlinhos Bem-te-vi)

2. CORAÇÃO POR QUE CHORAS?
(D.Ivone Lara)

3. VEJO EM TEUS LÁBIOS RISOS
(Mestre Fuleiro e Delfino Coelho)

4. UMA ROSA PRO CARTOLA
(Wilson Moreira e Nei Lopes)
(Música Incidental: “O SOL NASCERÁ” Cartola e Elton Medeiros)

FICHA TÉCNICA

Músicos:
Violão: Neco, Manoel Conceição (Mão de Vaca), Rafael Rabello e Ruy Quaresma
Harmônicas: Rildo Hora
Cavaquinho: Alceu Maia, Mané do Cavaco, Puan do Cavaco, Neco, Carlinhos (Som 7), Luciana Rabello
Bandolim: Joel Nascimento
Baixo: Bebeto (Tamba Trio)
Bateria: Papão e Hélio Schiavo
Percussão: Gordinho, Baiano, Luna, Marçal, Eliseu, Doutor, Geraldo Bongo e Everaldo
Ambientação: Conjunto Samba Som 7 (Baiano, Indio, Belôba, Betão, Getúlio, Setembrino, Pepé e Ailton Bozó)
Coro: D. Ivone Lara, Zenilda, Dinorah, Zezé, Barbosa, Genaro, Galã e Edgardo Luis

Produzido por: Rildo Hora
Direção Artistica: Guti
Arranjos e Regência: Rildo Hora
Assistente de Produção: Gregório Gomes Nogueira
Administração Musical: Teresa Teixeira
Técnico de Gravação e Mixagem: Toninho
Auxiliar de Gravação e Mixagem: Magro
Diretor Técnico: Dudu Marques
Coordenação de Estúdio: Laura Santos
Montagem: Wilson Medeiros
Estúdio de Gravação e Mixagem: Transamértca (RJ)
Corte: Osmar Furtado (Odeon)
Fotos: Juarez Cavalcarrti
Capa: Jatobá