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Axé! Gente Amiga do Samba

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Axé! Gente Amiga do Samba – Candeia, 1978
Atlantic – WEA BR 20.032, LP
por.: Marcelo Oliveira / 29 mar, 2017
Categoria(s).: Álbuns

Uma das mais elogiáveis características deste LP é o alto nível e o sentido profissional da produção. João de Aquino teve a sensibilidade de compreender as intenções de Candeia, deixando-o livre para realizá-las e, para tanto, oferecendo o máximo de apoio técnico. Sem, contudo, relaxar nos cuidados com a forma final, o que resultou em linguagem musical límpida e clara dicção rítmica. Um trabalho vigoroso, muito bonito e muito Candeia.

Com AXÉ!, particularizado na sua discografia pela qualidade da elaboração, Candeia prossegue um trabalho que ainda não conheceu solução de continuidade: prestar testemunho do que viu, vive, sabe e recolheu no universo do samba, da música popular, seu mundo. Quer trazer à luz os anônimos compositores que estão na base da cultura carioca. E o faz com uma consciência social cada vez mais aguda, expressa numa poética a cada dia mais depurada.

Dentro dessa linha de intenções, Candeia incorporou a elepês anteriores Ernani Alvarenga, Anésio, Joâozinho da Pecadora. Dentro dessa mesma perspectiva traz agora a Velha Guarda da Portela, nobre confraria fazendo coro na interpretação de sambas da antiga. Traz figura histórica que jamais gravou antes – Chico Santana, autor do hino da Portela, que com Candeia versa outro compositor histórico, Nelson Amorim, com “Ouço Uma Voz”, de 1931.

Traz Oswaldo dos Santos, o “Alvaiade”, há 20 anos afastado dos estúdios, com quem Candeia versa “Ouro Desça do Seu Trono”, de Paulo da Portela. Com Manacéa versa “Vivo Isolado do Mundo”, de Alcides Dias Lopes, o “Malandro Histórico”. Nos sambas dos anos 30’40, dotados apenas de primeiras partes (já que nos desfiles, as pastoras só a primeira cantavam, cabendo a versejadores de vozes possantes como João da Gente improvisar a partir dessa primeira, que era o mote, o ponto de partida para a criação espontânea).

Candeia acrescentou os demais versos, mantendo-se, porém, fiel aos autores e ao espírito melódico e poético originais. “- Eu quero que esse pessoal da antiga tenha oportunidade já, agora. Depois que o cara morre não adianta nada dizer que ele foi genial. O negócio é reconhecer enquanto eles ainda estão aí e podem lembrar dos trabalhos realizados pelos outros, que já morreram”.

Enfático, batalhador, Candeia exigindo passagem para o seu pessoal. Um privilégio contar com a amizade de Candeia. Bem-aventurados são os que podem conhecê-lo, ouvir, aprender com ele, sentir de perto a generosidade, o peito aberto, a ansiedade de empunhar o violão e cantar a história das gentes do Rio, e não apenas os próprios (e extraordinários) sambas. Temperamento de soba, está sempre ajudando, atendendo a um e outros, o telefone de sua casa em Jacarepaguá não para de tocar. Não dá guarida, porém, a sentimentos de fraqueza. Quer seu povo altivo “olhando o sol de frente”, fortalecendo-se nas batalhas contra o medo: “- Quem é bamba não bambeia”.

O que pensa está dito em “Dia de Graça”. Descobre e revela músicos e ritmistas: AXÉ! traz à cena mais um violão sete cordas de qualidade, Walter, irmão do já conhecido Waldir. É assim que AXÉ! revela o cabeça-feita Carlinhos, Ogã confirmado, 25 anos de idade e quase isso de Candomblé, mestre nos atabaques e em tudo o mais que seja percussão e ritmo. O elepê AXÉ! é, em certa medida, o resultado das posições assumidas e defendidas por um Candeia histórico e historiador em “Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz”, livro escrito em parceria com Isnard Araújo. Um disco fundamental para a história da música e do samba.

Repertório:

PINTURA SEM ARTE“ (Candeia, 1978) – este samba modula de menor para maior, ganhando conotação chorística. Niquinho, no bandolim, e Copinha, na flauta, dão o tom de baile de subúrbio, exatamente o que Candeia desejava mostrar. “- Eram bailes na casa de Dona Esther, em Oswaldo Cruz, a tia Ciata do meu tempo. Luperce Miranda, Pixinguinha, Claudionor Cruz, Zé com Fome, todo mundo ia para lá”. Era a macumba, o samba, o choro, tudo presente nas bases da formação de Candeia, filho de sambista. “- Herdei o axé de meu pai”.

OURO DESÇA DO SEU TRONO“ (Paulo da Portela) – Walter e João de Aquino nos violões, Walmar no cavaco, armam uma introdução bonita e cheia para a versaria Candeia/Alvaiade com o apoio do coro da Velha Guarda. De quando a Portelinha funcionava no quarto de Paulo Benjamim de Oliveira, na Barra Preta, em Oswaldo Cruz de 1929/31.

MIL RÉIS“ (Candeia / Noca – 1974) o surdo de Gordinho, fundamental em toda a linha de construção do disco, revela aqui a competência da marcação uniforme, encorpada e convicta.

VIVO ISOLADO DO MUNDO” (Alcides “Histórico”, 1931) – gravação duas vezes histórica: samba de Alcides e presença do redescoberto Manacéa (Quantas lágrimas).

AMOR NÃO É BRINQUEDO” (Candeia / Martinho da Vila, 1978) – a cuíca de Marçal e o repinique de Doutor saúdam o excelente resultado da nobre parceria dos velhos amigos, Iniciando dupla este ano e já com outros sambas prontos, além deste, e do Eu, você, orgia, gravado por Beth Carvalho. Os quatro primeiros versos são primorosos: “Se quiser se distrair, lique a televisão amor, comigo não/ Se está procurando distração o romance terminou mais cedo/ Peço por favor pra não brincar com meus segredos/ Verdadeiro amor não é brinquedo”

ZÉ TAMBOZEIRO (TAMBOR DE ANGOLA)” (Candeia / Vandinho 1976) – exemplo do tipo de samba que antecedeu ao partido alto. Na Bahia chama-se samba de roda, ou de umbigada; na macumba carioca, samba de caboclo. Marcante nesta gravação é a forte presença de Clementina de Jesus e a competência de Carlinhos, no toque de Angola, típico dos Candomblés da área do Rio e Grande Rio.

DIA DE GRAÇA” (Candeia, 1966) – no começo, os ritmistas encaminhando-se para a concentração, cada qual “esquentando” o instrumento, despreocupados em fazê-los concertantes, cada qual tirando o seu som, ainda não é a hora do desfile, mas de aquecimento. Um exercício de sons afro. Depois, então é o uníssono a orquestra de percussão em harmonia, desfile. Candeia desfila e, na pista da Avenida, larga a mensagem ao sambista: “Deixa de ser rei só na folia…”

GAMAÇÃO“ (Candeia, 1977) – na estrofe final, a força poética de um letrista que não tem medo de palavras nem se detém diante de imagens que fariam, talvez, tremer um poeta erudito: “neste amor submerso…” A “cozinha” mantém um certo clima de desfile, a Velha Guarda é coro a repetir melodia e versos. Repetindo, mantém e preserva as belezas que Candeia quer fazer conhecidas.

PEIXEIRO GRANFINO“ (Bretas / Candeia, 1977) – nasceu de um pregão popular que os dois compadres e parceiros escutavam na infância do Rio suburbano. Dona Ivone Lara verseja e cerca coro e canto com linda vocalização.

OUÇO UMA VOZ” (Nelson Amorim, 1931) – também neste samba antigo, de primeira apenas, Candeia acrescentou versos, mantendo-se sempre fiel ao espírito original da composição. Chico Santana estréia, com voz emocionada, no mundo do disco.

VEM AMENIZAR” (Candeia / Waldir 59, 1956) – apito chamando, bateria encorpada, subindo no jeito de desfile. Samba do terreiro apresentado, pela primeira vez, na Portelinha.

O INVOCADO” (Casquinha, 1978) – novamente a cuíca (desta vez antiga) de Marçal determinando o clima do partido zangado e crítico, bem carioca e muito expressivo dos atuais sentimentos populares diante do arrocho e do encolhimento de salários.

BEBERRÃO” (Molequinho / Aniceto) – os autores estão entre os fundadores da Império Serrano. Pagode solto, versos improvisados, Manuel Gonçalves (Manuel Bam Bam Bam, da Portela), lembrado e presente, como lembrado é o caldo de rã, infalível cura-porre.
Contracapa

Axé quer dizer: Candeia – Antônio Candeia Filho. Porque axé (áse), palavra de língua iorubana, significa força, energia, movimento, sem o que a vida não se realiza ou se resolve; e sem o que a cultura não se preserva nem se transmite. Asé significa: “eu quero, eu posso, eu faço”, na linguagem da natureza, na cosmogonia mágico-sagrada do Nagô, idioma e aval de Candeia, na profícua missão de plantar axé onde passe e no que faça. Axé: resistência (… “mas se é pra chorar/choro cantando/pra ninguém me ver sofrendo…”); luz da criação; energia transmissível no contato direto, e pelo canto, pela palavra, pelo som, quando têm eles a finalidade revigoradora de um Dia de graça (“negro, acorda, é hora de acordar”.). Esse artista de singular consciência social defende, mantém, preserva, revigora e transmite os princípios, inabalável fidelidade à sua gente. Por amor ao samba, ao povo e aos sambistas fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Samba Quilombo, em dezembro de 1975, num manifesto de coragem, sem filigranas de retórica sobre “embranquecimento” das escolas, sobre quem merece ou não merece sambar, para ele, todos merecem sambar, o samba está na veia do brasileiro, já o disse muito bem no pagode:”vem prá roda, menina, mexer com as cadeiras vem sambar, a idade não importa, a cor da tua pele não interessa…”. A discussão toda, Candeia sintetiza de forma objetiva e concreta, em trabalhos como este Axé! os amigos do samba, sexto elepê, disco de conotações ricas. Tem papo. Goró. Batida de limão. Atabaques. Agogô. E a melodia imprevista, de dissonâncias que a fazem tão bela; e as divisões perfeitas; e a poesia vigorosa, em certos momentos beirando a genialidade. É o axé dos ancestrais, dos heroicos fundadores do samba, Candeia cantando Paulo da Portela, Alcides Histórico. Samba em todos os climas; Canção. Choro. Roda. Candeia não se detêm diante de limites formais, todas as manifestações musicais populares são veículos de sua inspiração, axé da versatilidade. Artista nascido para cantar alto e abrir caminho, aproximar-se dele é empreitada de força, necessário ter coragem para encarar o axé que emana da sua figura de líder. O tranco é forte, necessário dispor também de asé para sadia troca de ideias e informações. Na WEA, ele está abrindo senda, inaugurando selo de samba, firmando seu partido. Que é o partido alto do povo, legitimando essa companhia nova no Brasil. Com etiqueta de autêntica música popular brasileira. Axê significa, ainda, coragem e persistência. Esse é o axé do violonista João de Aquino, há quatro para cinco anos dedicando a carreira de produtor às opções de música recolhidas nas fontes populares. E àse tem a própria WEA, que resolveu mostrar, a partir de Candeia, que também tem samba na veia.

Lena Frias
setembro de 1978
contracapa/encarte do LP

Lado 1

1.
PINTURA SEM ARTE
Candeia
2.
OURO DESÇA DO SEU TRONO
Paulo da Portela
MIL RÉIS
Candeia/Noca
3.
VIVO ISOLADO DO MUNDO
Alcides “Histórico”
AMOR NÃO É BRINQUEDO
Candeia/Martinho da Vila
4.
ZÉ TAMBOZEIRO
(TAMBOR DE ANGOLA)
Candeia/Vandinho

Lado 2

1.
DIA DE GRAÇA
Candeia
2.
GAMAÇÃO
Candeia
PEIXEIRO GRANFINO
Bretas/Candeia
OUÇO UMA VOZ
Nelson Amorim
VEM AMENIZAR
Candeia/Waldir 59
3.
O INVOCADO
Casquinha
BEBERRÃO
Molequinho/Aniceto do Império

PRODUZIDO POR JOÃO DE AQUINO

Direção Artística: Mazola
Direção de Produção: Guti
Co-Producao: Jodeli Muniz
Direção de Gravina: Edeltrudes Marques (Dudu)
Manipulando os Botões de Gravação: Vítor e Toninho
Auxiliares de Gravação: Rafael, Filé e Cláudio
Na Birita e no Cafèw: Seu Manoel
Arrejimentacào e Grande Forca: Zézinho
Cobrando os Trabalhos na Coxia: Lena Freitas, Clóvis Scarpino e Francisco Vieira
Rainha dos Ouitutes: Leonilda
Gravado no Rio de Janeiro em pleno subúrbio carioca no Bairro de S. Francisco Xavier no Estúdio Transamérica
Coordenação de Capa: Cláudio Carvalho
Arte: Lobianco
Foto: Ivan Cardoso
Arte Final: Ruth Freihof
Surdo: Gordinho
Pandeiro: Testa
Tamborim: Marçal e Luna
Cuíca: Marcal
Repique de Mão: Doutor
Repique de Pau: Carlinhos
Tumbadora: Geraldo Bongô
Agogô: Canegal
Bateria: Fernando e Wilson das Neves
Apito: Candeia
Violào de 7: Valter
Violão de 6: João de Aquino
Cavaco: Volmar

Convidados: Clementina de Jesus, Manacéa, D. Ivone Lara, Chico Santana, Casquinha, Alvaiade, João de Aquino e Velha Guarda da Portela: Casquinha. Chico Santana, Alvaiade, Osmar, Doca, Eunice e Manacéa

Coro: Tufy, China, Inácio, Laís, Vera, Nadir e Marli
Flauta: Copinha
Bandolim: Niquinho

Participação Especial de:
Alvaiade em ‘OURO DESÇA DO SEU TRONO’
Manacéa em ‘VIVO ISOLADO DO MONDO’
Clementina de Jesus e João de Aquino em ‘ZÉ TAMBOZEIRO (TAMBOR DE ANGOLA)’
Dona Ivone Lara em “PEIXEIRO GRANFINO’
Chico Santana em ‘OUÇO UMA VOZ’
Casquinha em ‘O INVOCADO’
Velha Guarda da Portela (CORO)