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Beth Carvalho, 1973 – Canto por um Novo Dia

9 maio, 2017 | Álbuns

O disco não foi de estreia. Porém marcou o inicio de uma discografia que se propôs ser anual. Um disco que pode ser entendido como uma seta de vôo preciso. E foi, podemos dizer sem medo de errar, seu mergulho definitivo no universo do samba, com a benção das musas da mitologia ocidental, Arche (canto) e Entope (música). Um percurso talvez iniciado em 66, com sua participação no show “A Hora e a Vez do Samba”, com Nelson Sargento e Noca da Portela.

“Canto por um Novo Dia”, produzido por José Xavier, trouxe elegância, lirismo e um pouco de melancolia (“Hora de Chorar”, de Mano Décio da Viola e Jorge Pessanha; a própria faixa-titulo do disco, assinada por Garoto da Portela e “Velhice da Porta Bandeira”, da autoria de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro). Os arranjos são de César Camargo Mariano. O clássico “Folhas Secas” estreou em gravação no mesmo ano (1973), nas vozes de Beth Carvalho e Elis Regina. Neste disco a canção é acompanhada pelos bordões do violão do autor Nelson Cavaquinho, que coroou o disco com excelência.

“Salve a preguiça, meu pai”, de Mário Lago, um samba sincopado, cuja letra pode ser entendida como um recado de estreante que veio para ficar – “espinho não me amedronta/nem pedra vai me assustar/quem quer que eu saia da estrada que venha me buscar”. Presente também está um João Nogueira surpreendente, até mesmo para os dias de hoje, na faixa “Mariana da gente”, seguida por “Fim de Reinado”, de Martinho da Vila, os anos se encarregaram de realçar seu talento para sambas que narram histórias. O cidadão de Duas Barras participou da percussão, ao som de um marcante pandeiro. Beth “salpicou” no tempero a leveza do saudável “descompromisso” ao cantar sua paixão pela escola verde rosa (“Memórias de um compositor”), versos que encantam a cantoria popular, provocadores do simples prazer da alegria de cantar, alguns de domínio público, outros que detém força e autenticidade quando cantados e marcados pelas palmas nos quintais suburbanos ou nas rodas de samba das periferias (“Flor de Laranjeira”/”Sereia”/”São Jorge Protetor”).

Seus luxuosos auxiliares também foram responsáveis pelo “sabor sonoro” – Dino 7 cordas, Geraldo Vespar, Luiz Cláudio Ramos e Nelson Cavaquinho (violão); Carlinhos 7 cordas e Zé Menezes (cavaquinho); Mestre Marçal, Jorginho do Pandeiro, Geraldo da Silva, Gilson de Freitas, Lana, Wilson Canegal e Chico Batera (percussão); Luizão Maia (baixo elétrico) e Paulinho Braga (bateria). No coro, Dinorah, Euridice, Marlene e Zélia são as pastoras inconfundíveis que estiveram ao lado de Genaro e Stênio Barcellos.

Nesse “Canto” ela abre a roda, se deixa definitivamente mergulhar no samba e caminhar para o posto que ocupa hoje: uma das maiores cantoras de samba de todos os tempos.

Célio Albuquerque

Se eu tivesse que inventar uma cantora, ela haveria (naturalmente) de ter uma voz muito bonita. Depois, eu a treinaria bastante para cantar bem, aprendendo os segredos da colocação da voz, das divisões, da respiração, da empostação, da naturalidade, essas coisas que se aprende na escola.

Mais tarde, diria a ela que isso tudo não basta. Uma cantora não é um instrumento musical. É uma pessoa, um ser humano e é fundamental que isso fique claro quando canta. As emoções, a tristeza, a alegria, a depressão, a angústia, tudo isso que uma música popular propõe tem que ser transmitido na hora de cantar. Depende muito dela que a música não seja raspada de suas sensações quando é transmitida.

E diria finalmente para cantar as coisas que vêm do povo. As músicas feitas pelos gênios do povo, impregnadas de talento e limpas das ambições comerciais e da neurose da novidade, tão próprias dos compositores de classe média. Sugeriria que ela servisse de ponte entre a cultura popular e o consumo, não deixando que o objetivo prejudicasse a origem. Teria que ser, portanto, uma cantora de muito talento.

Beth Carvalho me poupou este trabalho. Ela já. existe.

Sérgio Cabral
encarte do LP

LADO A
1 – HORA DE CHORAR 3:40
Mano Décio – Jorge Pessanha

2 – CANTO POR UM NOVO DIA 2:08
Garoto da Portela

3 – SE É PECADO SAMBAR 4:29
Manuel Santana

4 – HOMENAGEM A NELSON CAVAQUINHO 3:08
Carlos Elias

5 – EVOCAÇÃO NO. 1 2:44
Nelson Ferreira

6 – VELHICE DA PORTA-BANDEIRA 3:27
Eduardo Gudin – Paulo César Pinheiro

LADO B
1 – FOLHAS SECAS 2:44
Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito
(Violão: Nelson Vavaquinho)

2 – SALVE A PREGUIÇA, MEU PAI 2:13
Mario Lago

3 – MARIANA DA GENTE 3:52
João Nogueira

4 – FIM DE REINADO 2:21
Martinho da Vila

5 – CLEMENTINA DE JESUS 1:58
Gisa Nogueira

6 – MEMÓRIA DE UM COMPOSITOR 4:10
Darcy da Mangueira – Betinho

7 – FLOR DA LARANJEIRA 3:15
Zé Pretinho da Bahia – Bernardino Silva – Umberto de Carvalho
SEREIA/Folclore Baiano-adp: Beth Carvalho
SÃO JORGE, MEU PROTETOR/Nelson Cavaquinho – Jorge Silva – Noel Silva

Violões: Dino (7 cordas) – Luis Cláudio – Geraldo Wespar – Nelson Cavaquinho
Cavaquinhos: José Menezes – Carlinhos
Baixo: Luizão
Piano e Orgão: Cesar Mariano
Bateria: Paulinho
Rítmo:
Marçal (tamborim)
Gilson de Freitas (ganzá)
Geraldo da Silva (agogô)
Jorge José da Silva (pandeiro)
Luna (surdo)
Ministro (cuica)
Wilson Carmegal (tamborim)
Bezerra (surdo)
Conjunto Nosso Samba
Eliseu (tamborim)
Chico Batera (chocalho)
Martinho da Vila (pandeiro)
Pistons: Maurílio – Darcy
Sax e flauta: Jorge Ferreira – Jaime Araújo
Violinos: Spala – Santino Parpinelli – Marcelo Pompeu – Pesach Nisenbaum – Murillo da Silva – Jorge Faini – Ernani Bordinhão – Jeremias Waschitz – Ivan Sergio Niremberg – Paschoal Perrota
Violas: Henrique Niremberg – Fredinck Stephany – Gerson Flinkas – Felix Cyncynates
Ceblos: Márcio Exnard – Nelson Márcio Niremberg
Côro: Dinorah – Euridice (As Gatas) Marlene da Silva – Zélia Bastos (As Cigarras) Carlos Alberto – Genaro – Stênio (Conjunto Nosso Samba)

FICHA TÉCNICA:
Produção: José Xavier
Arranjos e regência:
César Camargo Mariano
Técnico de som:
Luigi Hoffer e Walter
Matriz: Gaus
Arregimentador: Perrota
Capa: Pedrinho de Moraes
Supervisão: M. V. Camero