Escolha uma Página

Cartola, 1976

48

Cartola – 1976
Discos Marcus Pereira MPL 9325, LP
por.: Marcelo Oliveira / 02 abr, 2017
Categoria(s).: Álbuns

Esse segundo disco de Cartola (Angenor de Oliveira, 1908) – assim como o primeiro também lançado pela Marcus Pereira – documenta parte da criação do compositor ao longo de quase cinco décadas de atividade, e procura igualmente mostrar seu trabalho atual, que o velho tronco da Estação Primeira de Mangueira continua em brotação constante, dando ás vezes uma música nova por semana.

Fatalmente muita coisa de excelente qualidade teria que ficar de fora, tanto mais quando o seletivo Cartola (não é qualquer compositor novo que ousa enfrentar seu silêncio diante de um samba mais ou menos) resolveu selecionar duas faixas para homenagear dois compositores de sua predileção: Silas de Oliveira e Candeia.

Escolhidas, finalmente, as músicas, procurou-se garantir, um acompanhamento que ressalta-se respeitosamente a beleza da criação, sem afetar sua simplicidade. Assim, manteve-se o diretor e arranjador musical do primeiro disco, o maestro Horondino Silva (Dino), também presente no violão de sete cordas, ladeado por Meira (violão) e Canhoto (cavaquinho), um trio musicalmente junto desde 1937. Revezando-se no sopro, o maestro Nelsinho (trombone), Altamiro Carrilho (flauta) e Abel Ferreira (sax tenor). Em participações especiais estão Aírton Barbosa, do Quinteto Villa Lobos, o compositor e violonista Guinga (violão), e José Menezes (viola de 10 cordas). O compositor Élton Medeiros comparece no ritmo (caixa de fósforos, tamborim e ganzá), com Jorginho (Quatro Ases e um Coringa, Época de Ouro) no pandeiro e na chefia do ritmo, completado por Gilson (surdo), Nenê (cuíca e agogô), Wilson Canegal (reco-reco e agogô). Do coro de João Teixeira participam o próprio, Mário, Zezé, Marly e Vera.

Em duas composições em que se achou cabível a forma dialogada – homem e mulher – descartou-se logo a ideia de chamar uma cantora profissional. E Creusa, filha de criação de Cartola, pedindo licença de seu trabalho de engomadeira no Leme Palace, veio ao disco com sua afinada extroversão – voz de pastora mangueirense, voz de ex-pastora de Geraldo Pereira.

selo lado A

E assim distribuiu-se o repertório:

O MUNDO É UM MOINHO’ Samba-canção inédito de 1975. Na introdução Altamiro Carrilho e Guinga, cujo violão continua o acompanhamento sozinho na parte em ritmo livre.

MINHA’ O repertório já estava escolhido quando Cartola apareceu com esse samba. É de fevereiro/março de 1976.

SALA DE RECEPÇÃO’ Em 1941, numa história muitas vezes repetida, Paulo da Portela desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de Escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde os levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época esse samba, inédito, e aqui apresentado em diálogo com Creusa. O inimigo, que na Mangueira, “se abraça como se fosse irmão” evidentemente é Paulo da Portela.

NÃO POSSO VIVER SEM ELA’ Na autoria desse samba, dois pioneiros das Escolas de Samba: Cartola, fundador da Mangueira e Alcebíades Barcelos, o Bide (1902/1975) fundador da Deixa Falar, do Estácio. Lançado em janeiro de 1942 (Compacto simples Odeon 12 106-B) é o outro lado do famoso “Amélia” e, portanto, marca também o começo de Ataulfo Alves como cantor. Regravado em 1965 com o título de “Mulher Fingida” pelos Cinco Crioulos (Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Anescarzinho). Primeira do samba de Cartola e segunda de Bide.

PRECISO ME ENCONTRAR’ Composição de Candeia, de fins de 1975, especialmente para esse disco de Cartola. Considerou-se o fagote o instrumento ideal para marcar as acentuações graves da música, o que remete a própria voz de Candeia.

PEITO VAZIO’ De Cartola e Élton Medeiros, da mesma época em que os dois fizeram “O Sol Nascerá” – início da década de 60, quando Cartola morava na Rua dos Andradas, 80 local de famosas reuniões sambísticas e que seria o embrião do Zicartola, na Rua da Carioca.

ACONTECEU’ Outra música de 1976. Concluída dias antes dessa sua gravação.

AS ROSAS NÃO FALAM’ Outro inédito, de 1975. Uma das letras mais bonitas de Cartola. Élton em discreta marcação na caixa de fósforos.

SEI CHORAR’ Há cerca de três anos, quando se interessou em gravar o samba “Sentimentos” Paulinho da Viola ouviu de Mijinha, o autor, o histórico da música. Aí por volta de 1938 ou 1939, numa festa em Mangueira, Mijinha ouvira muito um samba de Cartola que dizia: “Sei chorar eu também já sei sentir/ a dor/” Voltou de trem para Oswaldo Cruz na cabeça, e em resposta (leia-se inspirado nele) fez “Sentimentos“. Élton Medeiros incluiu em seu primeiro LP, em 1973, mas só agora o samba é gravado em sua letra completa, esquecida por Cartola mas lembrada por Creusa.

ENSABOA’ Menino, na segunda metade do século, Cartola ouvia do avô materno, o campista Luiz Cipriano Gomes então nos seus 70 anos um insistente refrão de lundu: “Ensaboa mulata ensaboa/ ensaboa. Tô ensaboando”. Só isso. Muitos anos mais tarde Cartola partiria do refrão para fazer este lundu, inclusive nos conselhos do musicólogo Mozart de Araújo e daí resultou um trabalho essencialmente de cordas: aos dois violões e ao cavaquinho junta-se a viola de José Menezes, bordando sobre a melodia.

SENHORA TENTAÇÃO’ Samba de Silas de Oliveira já gravado por Jorginho Pessanha (Império, História das Escolas de Samba, 1974 – Marcus Pereira) lançado no terreiro do Império Serrano em 1955, segundo está informado naquele disco.

CORDAS DE AÇO’ Samba-canção inédito de Cartola, situa o seu nascimento mais ou menos em 1968.

Os méritos pela adequada apresentação do produto final, cabem a Norival Reis, diretor técnico e responsável pela mixagem, com a assessoria de Jardel nos cortes. E de que esse trabalho por parte de todos foi feito com o amor que merece a obra de mestre Cartola, dou fé.

Juarez Barroso, abril 1976
contracapa do LP

LADO A

  1. O Mundo é um Moinho (Cartola) – 3,53
  2. Minha (Cartola) – 2,16
  3. Sala de Recepção (Cartola) – 3,24
  4. Não Posso Viver Sem Ela (Cartola e Alcebíades Barcelos) – 2,40
  5. Preciso me Encontrar (Candeia) – 2,57
  6. Peito Vazio (Cartola e Elton Medeiros) – 2,50

LADO B

  1. Aconteceu (Cartola) – 2,46
  2. As Rosas Não Falam (Cartola) – 2,51
  3. Sei Chorar (Cartola) – 2,26
  4. Ensaboa Mulata (Cartola) – 3,24
  5. Senhora Tentação (Silas de Oliveira) – 3,03
  6. Cordas de Aço (Cartola) – 2,15

FICHA TÉCNICA

Produção: Juarez Barroso
Direção musical e arranjos: Maestro Horondino Silva (Divo)
Direção técnica e mixagem: Norival Reis
Estúdio: Hawai
Lay-out: Tonhão