Verde Que Te Quero Rosa Cartola 1977, LP - RCA Victor

Verde Que Te Quero Rosa - Cartola 1977

Verde Que Te Quero Rosa - Cartola 1977Foi nos primeiros anos da década de 30 que eu vi pela primeira vez o nome de CARTOLA.

Já havia ele vencido um concurso de escolas do sambas em 1929, organizado por José Spinelli. A palavra “desfile” veio muitos anos depois. Procurado por cantores como Mário Reis e Francisco Alves logo viu as suas primeiras músicas gravadas em disco pelos dois grandes intérpretes do samba e, ainda, pela cantora que começara a despontar, já com sucesso absoluto — Carmen Miranda que aliás gravou em sua longa carreira apenas um samba de Cartola — “Tenho um novo amor” na RCA, no tempo de VICTOR TALKING MACHINE C OF BRAZIL.

Já o Chico gravara várias outros, sendo o de maior sucesso, até hoje lembrado samba “Divina Dama”. Silvio Caldas outro grande intérprete e compositor gravou “Na Floresta” um samba bipartido. Chico Alves o havia comprado, gostara da música, mas não dos versos. Encomendou outros ao compositor Buci Moreira e nasceu o “Foi em Sonho”. A letra anterior, “Na Floresta” recebeu música do próprio intérprete, Silvio, ainda na RCA. Anos depois, um cantor que surgia, Arnaldo Amaral, que ia nas águas do Chico, como muitos outros, passa para o disco o samba “Fita os Meus Olhos”, que encontramos na presente gravação, desta vez cantada pelo autor. […]

Angenor de Oliveira, o CARTOLA, nasceu na Rua Ferreira Viana, no Catete, no dia 11 de outubro de 1908, mas, menino traquinas, como então se dizia, passava o sou tempo livre nas Laranjeiras, bairro próximo ao Catete. A escola do nome ‘Estação Primeira de Manqueira’ foi dado pelo grande sambista e não foi por acaso que as cores da escola são o verde-rosa. É que, brincando por perto da sede do Fluminense F C tornou-se um ardente tricolor. Aliás, por iniciativas do caricaturista Otelo Caçador, CARTOLA visitou, já célebre, o clube do seu coração, onde foi homenageado pela diretoria, tendo à frente o seu presidente de onde recebeu bandeiras, troféu e também o livro do escritor Paulo Coelho Neto, filho do grande romancista presente na ocasião.

Em 1940, recebemos a visita do maestro de fama internacional Leopold Stokowski. Por indicação de Villa-Lobos, os mais genuinos artistas populares, ou puros, sem influências vindas de outras praças. CARTOLA estava entre eles e gravou pela primeira vez o samba “Quem Me Vê Sorrindo” (parceria com Carlos Cachaça), no navio S.S. Uruguai. Interessante que um cronista de grande jornal, em geral bem informado, desmentiu recentemente o fato, dizendo que CARTOLA jamais havia gravado com Stokowski, quando folheando o mesmo jornal em que escreve, encontraria uma detalhada notícia do acontecimento.

CARTOLA passou então a ser esquecido. Que me lembra, somente Jamelão gravou um dos seus sambas — “Grande Deus” – em 1952, de rara beleza.

Em 1960/1 surge o Zicartola, na Rua da Carioca, sendo Zica, sua mulher, uma grande cozinheira (ai que saudades do grão-de-bico com carne-seca e toucinho). Para ali levou vários companheiros de sua geração como Ismael Silva e Nelson Cavaquinho, outros que não tinham vez para se apresentar ao público, caso do Zé Keti, além de jovens compositores que surgiam, aqueles que mantinham as tradições do samba, como Elton Medeiros e Paulinho da Viola e muitos outros. È de se notar que passaram a chamar o verdadeiro samba de sambão, quando deveria ser o contrário, certos produtos híbridos é que se chamariam, por muito favor, sambinha.

No presente disco em longa duração o primeiro que realiza para a RCA e o quinto que grava com técnica moderna e apurada, CARTOLA canta sambas de diversas épocas, sete inéditos, sendo o mais antigo o que se intitula “O Que é Feito de Você?” (1958), e o mais recente foi composto em Julho de 1977 “Autonomia”. “Verde Que Te Quero Rosa” é do ano anterior. Teria CARTOLA desfigurado o verso famoso de Garcia Lorca? Inútil acrescentar aqui que o nosso sambista nunca leu os versos do grande poeta espanhol. CARTOLA é homem de poucos parceiros aqui vamos encontrar Nuno Veloso (“A Canção Que Chegou”) de 1971.

Dalmo Castelo, um jovem de Ipanema, frequentador do bar que Tom e Vinicius consagraram, parceiro no samba que dá nome ao disco e cuja música e letra foram feitas em 1976. Das mais antigas, ou já gravadas anteriormente, encontramos Oswaldo Vasques, o Baiaco “Fita Meus Olhos”, seu velho amigo Carlos Cachaça “Tempos Idos”. CARTOLA presta homenagem a três compositores que muito admira – Geraldo Pereira “Escurinha”, gravada anteriormente pelo próprio autor e a dupla Nelson Cavaquinho — Guilherme de Brito, dois grandes do samba “Pranto de Poeta”, já gravado por Nelson que, homenageando CARTOLA e sendo homenageado, canta um dos versos da nova gravação. Devemos, ainda acrescentar que o samba “Tempos Idos” foi gravado anteriormente com CARTOLA fazendo dupla com a cantora Odete Amaral.

Nós Dois” é o samba feito em 1964, pouco antes do seu casamento Euzébia Silva do Nascintonto, a Zica.

O produtor deste disco é Sergio Cabral, um dos maiores conhecedores da música popular brasileira, autor de um livro básico da bibliografia sobre o assunto “As Escolas de Samba, o que, quem, como, quando e por que”, que tive a honra do prefaciar. No momento prepara uma monografia sobre o maior dos nossos artistas populares, o grande Pixinguinha. Sua colaboração nos principais jornais e revistas brasileiras é sempre recebida com interesse pelos leitores, já tendo escrito centenas e centenas de estudos e críticas sobre o assunto a que se dedicou.

Sendo assim escolheu o que de melhor convinha para acompanhar a voz de CARTOLA. O mestre Horondino Silva, o famoso Dino do Violão de sete cordas fez o arranjo de onze das faixas aqui apresentadas. Chamou ele Altamiro Carrilho, flauta. Nelsinho, trombone de vara, e Abel Ferreira clarineta, músicos de alto gabarito, que todos conhecem. Também seus velhos companheiros Meira ‘Jaime Florence’, violão e Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano), cavaquinho que faziam com ele parte do regional do flautista Benedito Lacerda. Os ritmistas são Wilson, Jorginho Luna, Eliseu, Marçal além do contrabaixo de Dininho, filho de peixe. O coro que se ouve em diversos números é o do veterano Joab. O próprio Dino está presente nas onze faixas com seu insuperável instrumento.

Em uma das onze faixes do disco, Cartola canta pela primeira vez com grande orquestra e esta não podia ser melhor, dirigida que foi pelo grande maestro Radamés Gnattali, um músico de fama mundial que já se exibiu em inúmeras cidades da Europa Radamés, pianista dos maiores, está no teclado no samba “Autonomia”. Autor de inúmeras sinfonias, concertos, rapsódias e peças para câmara, Radamés não repudia a música popular brasileira, sendo autor de algumas centenas de peças no gênero. Para ele a etiqueta “erudita” ou “popular” nada significa, e sim a qualidade da música.

Este é o primeiro disco que Angenor de Oliveira realiza para a RCA. Que venham outros, muitos outros, para mostras as novas gerações o que é o samba em toda a sua autenticidade.

Lúcio Rangel

FAIXAS

A1 Verde Que Te Quero Rosa
Cartola/Dalmo Castelo

A2 A Canção Que Chegou
Cartola/Nuno Veloso

A3 Autonomia
Cartola

A4 Desfigurado
Cartola

A5 Escurinha
Geraldo Pereira/Arnaldo Passos

A6 Tempos Idos
Cartola/Carlos Cachaça


B1 Pranto de Poeta
Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho
*/part: Nelson Cavaquinho

B2 Grande Deus
Cartola

B3 Fita Meus Olhos
Cartola/Osvaldo Vasques

B4 Que É Feito de Você
Cartola

B5 Desta Vez Eu Vou
Cartola

B6 Nós Dois
Cartola

P.S. áudio playlist formato mp3/320Kbps

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