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Da Cor do Brasil

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Da Cor do Brasil – Alcione, 1984
RCA ‎– 103.0627, LP
por.: Marcelo Oliveira / 25 abr, 2017
Categoria(s).: Álbuns

O disco “Da Cor do Brasil”, lançado pela cantora maranhense Alcione em 1984 (pela gravadora RCA Victor) pode ser considerado em duas vertentes: a manutenção da fidelidade da artista às suas origens e gostos regionalizados e a consolidação de mais um estilo que produziu alguns sucessos no restante da década de 1980 (e que continua até hoje): as canções de romantismo no limite do despudoramento. E a produção, desde à capa (onde a Marrom aparece docemente bonita e sorridente) e atingindo a seleção de repertório, indicam o objetivo de tornar o trabalho o mais atraente possível, tanto na parte comercial quanto artística.

O título do disco denota exatamente a coexistência entre a miscigenação da cultura e a singularidade de cada gênero musical apresentado. Além das canções românticas, Alcione finalizou o tripé de “Da Cor do Brasil” com o samba e o pagode carioca e as vertentes nordestinas. Começando pela samba e o pagode, o disco é aberto com “Mangueira Estação Primeira”, composição de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro. Mais do que homenagear a eterna escola de coração, a cantora fez a gravação com a finalidade de manter uma tradição iniciada pela amiga Clara Nunes no começo da década de 1980: em cada lançamento, apresentar um samba em louvor às grandes agremiações do Carnaval do Rio. Clara morreu em 1983 tendo gravado homenagens à Portela e ao Império Serrano (as duas compostas por Duarte e Pinheiro) e Alcione fez a festa cantando “Salve a Mangueira/ Que mantém-se original/ E até no nome é a primeira/ Acima do bem e do mal/ Representa a última guerreira/ Na tradição do carnaval”. Exatamente naquele ano, a Verde-e-Rosa foi a primeira campeã do então recém-inaugurado Sambódromo (com a nomenclatura especial de “supercampeã”, já que a Portela foi declarada campeã do primeiro dia de desfile, regra que não vingou).

O trabalho também teve duas gravações que remetiam à diversão dos blocos carnavalescos: “Vida Boa”, de Zé Catimba e Serjão, que tem um refrão em ritmo de batuque (“O desamor é danado/ Machuca calado/ Dói o coração/ Mas comigo não/ Você dá o pé, ele que a mão/ Vou gozar com a cara dele mãe, vou gozar/ Vou gozar com a cara dele mãe, vou gozar…”) e “Tá Que Tá”, composição de Franco resgatada de uma disputa de samba-enredo na União da Ilha naquele ano (“Quem pode, pode/ Embala o sonho até sonhar/ Tô que tô, tá que tá/ E nesse embalo sou criança, sou folia/ Éta vida, chego lá”).

Alcione contou com a participação especial de Nei Lopes no sambalanço trava-língua “Sambeabá”, autoria do próprio Lopes em parceria com Sereno: “Pra poder soletrar o beabá do samba/ Não tem que ser bamba/ Só tem que querer/ A Dona Iracema chegou de Ipanema/ Cheia de sistema, cheia de chiquê/ Mas não ‘guentou’ quando escutou/ O pandeiro esticando o ganzá/ Rapidinho ela veio pro esquema/ Versando no tema do sambeabá”). A Marrom faz aliança entre o pagode e o romantismo em no desabafo de reação “Na Mesma Proporção” (Jorge Aragão e Nilton Barros) e, encerrando o passeio pelo samba no disco, ela gravou o samba de filosofia moral “A Luz do Vencedor”, autoria dos saudosos Candeia e Luiz Carlos da Vila.

Indo pelo caminho de outros ritmos regionais: a cantora gravou junto com Maria Bethânia a música mais conhecida de “Da Cor do Brasil”: “Roda Ciranda”, autoria de Martinho da Vila, onde cada uma mostra sua reverência pela terra local da outra. Era o segundo dueto gravado entre as duas, já que Alcione fez participação especial na gravação de “O Meu Amor” (Chico Buarque) no disco “Álibi”, lançado por Maria Bethânia em 1978.

Não deixando de lado suas raízes nordestinas, a artista esbanjou alegria na gravação especial de “Forrofiar” (Luiz Gonzaga e João Silva), onde ela cita seu próprio apelido (“Esse forró tá muito bom/ Pra lá de bom/ Deixa um pouquinho pra Marrom/ Mas aqui pra Marrom”). Gonzagão fez uma curta participação falada no final da música.

Alcione também manteve o costume de gravar composições do pai, o maestro de banda militar João Carlos, desta vez com “Proa”, onde ocorre o momento mais curioso e surpreendente do disco. Na contracapa de “Da Cor do Brasil”, aparece o aviso (*) de que “Proa” havia sido vetada para a execução pública pela Censura Federal (que, ainda existia na década de 1980 e indo em cima de questões ligadas à “moral e bons costumes”). O indicativo do que motivou o corte está presente logo nos primeiros versos da música repleta de expressões regionais:

O timbre grave e pesado de Alcione foi aproveitado nas três músicas que são a parte mais romântica do disco: em “Desiguais”, um tenso e denso aviso de rompimento conjugal composto por Prentice e Ronaldo Monteiro de Souza (“Com você no quarto eu não entro mais/ Agora parto para um outro cais/ De corpo farto e não tendo paz… Ah, eu vi que a gente é muito desigual/ Você só sente o amor carnal/ Se parto agora não é casual”); na apaixonada “Quem É Você”, de Ed Wilson e Cury, e em “Pedrinhas de Cor”, um samba-canção autoria de Armando e Cícero Nunes cuja letra faz lembrar com perfeição os clássicos de Dolores Duran sobre o que é uma decepção amorosa:

“Da Cor do Brasil” teve a direção artísitca de Miguel Plopschi e a produção executiva de Ivan Paulo.

Leonardo Guedes

Lado A

MANGUEIRA ESTAÇÃO PRIMEIRA
Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro

RODA CIRANDA
Martinho da Vila
Participação Especial de Maria Bethania gentimente cedida pela Polygram do Brasil LTDA.

DESIGUAIS
Prêntice/Ronaldo Monteiro de Souza

VIDA BOA
Zé Catimba/Serjão

FORROFIAR
Luiz Gonzaga/João Silva
Participação Especial de Luiz Gonzaga

PEDRINHAS DE COR
Armando Nunes/Cícero Nunes

Lado B

TÁ QUE TÁ
Franco

QUEM É VOCÊ
Ed Wilson/Cury

SAMBEABÁ
Sereno/Nei Lopes
Participação Especial de Nei Lopes

NA MESMA PROPORÇÃO
Jorge Aragão/Nilton Barros

PROA *
João Carlos

A LUZ DO VENCEDOR
Luiz Carlos da Vila/Candeia

Direção Artística: Miguel Plopschi
Produção Executiva: Ivan Paulo
Assistente de Produção: Milton Manhães
Arranjos e Regências: Ivan Paulo/Jorginho
Técnicos de Gravação: Mario Jorge Bruno/Luiz Carlos T. Reis/Flávio Sena
Mixagem: Mario Jorge Bruno/Luiz Carlos T. Reis (Roda Ciranda)
Supervição de Áudio: Gunther J. Kibelktis
Corte: José Oswaldo Martins
Paulo A.A. Torres
Arregimentação: Gilberto D’Ávila
Jóias: Roberto Farina
Cabelo: Luiza Tranças
Maquilagem: Beto Fernandes
Produção: Guilherme Pereira
Fotos: Antônio Guerreiro
Arte Final: Vittore Talone
Logotipo: Arthur Fróes
Capa: Valério do Carmo e Arthur Fróes
Direção de Arte: Valério do Carmo

* PROIBIDA EXECUÇÃO PÚBLICA DA MÚSICA “PROA”,
POR TER SIDO VETADA PELA CENSURA FEDERAL.