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ederaldo gentil – pequenino – 1976

23 maio, 2017 | Álbuns | 0 Comentários

Esse é o retrato cantando de um sambista. Só que de um sambista que não veio dos morros cariocas, mas que se ligou desde pequeno a assuntos de batucada. Que veio dos longes de Salvador, do Largo 2 de Julho, onde garoto ainda queria consertar o tempo – o da bateria da escola de coração, Filhos do Tororó, e o dos relógios quebrados que iam parar na modesta oficina com que ajudava a manter unida uma família grande. Na Filhos do Tororó, o presidente Arnaldo Silva percebeu certo dia que seu ritmista poderia voar mais alto. Ser compositor respeitado, dono de sucesso nacional. “O Ouro e a Madeira” prova que ele tinha razão. Ederaldo precisou só de tempo para realizar seus sonhos de rapaz. E tempo era matéria que ele dominava com facilidade, fosse o dos relógios teimosos ou o dois por quatro dos sambas que fazia.

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Chantecler – 2-08-404-074, LP
por.: Marcelo Oliveira

Vieram tempos difíceis. Fora de tempo. A vida se atrasando, se adiantando. Ederaldo tentando aperfeiçoar a batida, já sem os relógios mas consciente de que, na hora em que a vida o despertasse, ele entraria com tranquilidade no tempo certo. Sem atravessar. Como nos tempos de “2 de Fevereiro”, 1967, o seu primeiro samba-enrêdo, a sua primeira alegria de ver a Filhos do Tororó cantando pela cidade o samba feito dentro de uma relojoaria.

A partir desta data, Ederaldo ganhou mais confiança. Participou algumas vezes do Festival de Salvador, tirou um terceiro lugar, ganhou três vezes o prêmio principal. Um dos sambas campeões “Esquece a Tristeza”, foi gravado por Tião Motorista e deixou o compositor pronto para se tornar um profissional.

1969 foi um tempo decisivo. De um encontro com Jair Rodrigues, nasceram duas gravações: a de “Berequetê” e a de “Alô, Madrugada”. A primeira, produto da vontade de Ederaldo compor um afro, teve o refrão que a mãe colheu nos cantos do candomblé e lhe ensinou. Ederaldo, filho de Ogum não dava dúvidas. E alguém tem dúvida dos motivos que levaram à escolha das cores azul e branco para a capa deste “Pequenino”?

Essas gravações foram importantes, mas o grande acontecimento de 1969 foi outro. Ederaldo tinha brigado com sua Filhos do Tororó e foi convidado pelas outras escolas de samba para fazer o samba-enrêdo. Quando veio o carnaval, veio o inusitado: todas as nove escolas de Salvador cantaram nas ruas sambas feitos por um só compositor. Apenas uma escola trazia outra assinatura. Justamente a Filhos do Tororó.

Passou mais um pouco de tempo Ederaldo deixou os relógios parados e foi para São Paulo. Através de Juca de Oliveira, Fernando Faro, Walter Silva e Magno Salerno, foi levando. Programas na Tv Cultura, na Record – tempos de “Mixturação”. Houve boa vontade, boas intenções, mas não deu muito certo, não. Era 1972.

Novamente Ederaldo estava na Bahia. De volta a Salvador, aos problemas de casa, aos relógios sem ponteiros, como os de Bergman, ou amolecidos como os de Dali. E de volta à oportunidade de fazer as pazes com a Filhos do Tororó e compor o samba de homenagem ao cinquentenário de Menininha do Gantois como ialórixá. Chamou-o “In-Lê-In-Lá” e só agora é que transportou a música para a fita magnética de um estúdio de gravação. Foi seu último samba-enrêdo.

Logo depois veio “O Ouro e a Madeira” e o Rio acolheria com grandeza o sambista de Salvador. Num programa de Adelzon Alves, ficou decidido que o conjunto Nosso Samba gravaria a nova composição. O que se segue, todo mundo já sabe; “O Ouro e a Madeira foi tudo pra mim”. Antes saíra um compacto – selo Chantecler. Com o inesperado do sucesso nem Ederaldo entendeu direito quando a gravadora o procurou. Pensou em outro compacto. A gravadora ofereceu-lhe um elepê (o mesmo que até os mais radicais saudaram em 1975).

Dos resultados do primeiro elepê, que credenciou o nome de Ederaldo Gentil entre os mais importantes da nova geração do samba, nasceu este “Pequenino”, de muita paciência. Segundo elepê é sempre mais difícil. Enquanto o primeiro traz toda a bagagem do compositor junto com as desvantagens de uma situação que transita entre o profissionalismo incipiente e o amadorismo do recém deixado, o segundo vale como um teste definitivo.

O artista fica obrigado a mostrar até aonde pode ir. Até que ponto o sucesso inicial não foi mero acidente, nome que sobe e logo depois desaparece na cortina do consumo. Ederaldo, cuja vontade de compor levou-o a somar o cavaquinho aos instrumentos de percussão que domina com habilidade mostra nesse “Pequenino” suas intenções. Em “De Menor”, por exemplo, (quem não perceberá os duetos das mil flautas de Altamiro Carrilho?). Ou em “Compadre”.

Parceiro de Edil Pacheco, Batatinha, Nelson Rufino, Paulinho Diniz e Eustáquio Oliveira, das noites perdidas no Lanches Santa Cruz, Ederaldo guarda um estilo macio. Mesmo nos tempos ácidos. Talvez alguma coisa entre Ataulfo Alves e seu parceiro Batatinha, apreendida nos papos com o amigo Gildo Alfinete. Em “Pequenino”, este estilo navega solto e perfeitamente sincronizado com os tempos perfeitos de músicos como Waldir Silva, Niquinho, Altarmiro Carrilho, João de Aquino, Luna, Eliseu, Marçal e Pedro Sorongo. O que não foi difícil ao ex-relojoeiro: música, afinal é a maneira mais bonita de marcar o tempo. Para citar um clássico.
ROBERTO MOURA

Este disco é também a minha forma de agradecimento. A Arnaldo Silva, presidente da Filhos do Tororó. Aos que me ajudaram em São Paulo: o ator Juca de Oliveira, Fernando Faro, Magno Salerno e Walter Silva, o Picapau. A Adelzon Alves, Coelho Neto, Pedro Paulo e Iberê Bandeira de Mello, estes dois últimos, advogados. Aos artistas que quiseram cantar minhas músicas, como Roberto Ribeiro, Batatinha, Jair Rodrigues, Leny Andrade, Alcione, Nosso Samba, Banda do Canecão, Miltinho, Tião Motorista e a imprensa baiana.

A coisa mais importante desde “Pequenino” foi ter sido feito exatamente da forma que planejei. Foi ter sido produzido pelo compositor e violinista João de Aquino, o que vinha de encontro a uma vontade antiga e a uma amizade forte. Das coisas que aconteceram no estúdio, a que me surpreendeu mais foi a presença de Altamiro Carrilho. No meio dos grandes músicos que ajudaram a enriquecer o meu trabalho, ele era o único a quem eu não conhecia. Com sua sensibilidade, ele me ajudou a descobrir coisas novas.
EDERALDO GENTIL
textos: contracapa do LP

Lado A:

  1. In-Lê-In-Lá
    (Ederaldo Gentil – Anisio Felix)
    (Censura n.° 33541)
  2. O Rei
    (Ederaldo Gentil – Paulinho Diniz)
    (Censura n.° 41126)
  3. De Menor
    (Ederaldo Gentil)
    (Censura n.° 41128)
  4. Manhã de Um Novo Dia
    (Ederaldo Gentil – Edil Pacheco)
    (Censura n.° 33226)
  5. Bêrêkêtê
    (Ederaldo Gentil)
    (Censura n.° 1484n)
  6. O Samba e Você
    (Ederaldo Gentil – Nelson Rufino – Memeu)
    (Censura n.° 41125)

Lado B:

  1. Dois de Fevereiro
    (Ederaldo Gentil)
    (Censura n.° 41122)
  2. Vento Forte
    (Ederaldo Gentil – Eustáquio Oliveira)
    (Censura n.° 41129)
  3. Compadre
    (Ederaldo Gentil)
    (Censura n.°41123)
  4. Peleja do Bem
    (Tatau – Thea Lucia)
    (Censura n.°41124)
  5. Rio das Minhas Ilusões
    (Ederaldo Gentil)
    (Censura n.° 41127)
  6. A Bahia Vai Bem
    (Ederaldo Gentil – Batatinha)
    (Censura n.° 42343)

MÚSICOS

Violão de 7 cordas: Waldir Silva
Cavaquinho: Tuninho e Waldir Silva
Flauta: Altamiro Carrilho
Bandolim: Niquinho
Violão: João de Aquino
Surdo: Gordinho
Tamborim: Luna – Eliseu e Marçal
Pandeiro: Jorginho
Atabaques: Geraldo Bongô e Bira da Silva
Agogô: Pedro Sorongo – Nelsinho
Berimbau: Pedro Sorongo, Nelsinho, Neném e Cláudio
Bateria: Ricardo
Côro: Dinorah, Zélia, Euridice, Da Fé, Amaro, Camarão, José Amaro, José Carlos, Jackson, Elza e Therezinha.