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Encontro com a Velha Guarda – 1976

1 abr, 2017 | Álbuns

Eis aqui um clássico do samba de raiz, cujas músicas ainda frequentam as mais autênticas rodas de samba em todo o país. Gravado em 1976, e produzido por Mazolla, o disco tem aqueles que, na época, eram lendas vivas do samba, e hoje, por força do próprio tempo, são lendas eternizadas pelo enorme talento, legado e ensinamento. Então, temos aí os seguintes compositores, que, inclusive, são os intérpretes de suas músicas:

Mano Décio da Viola (Décio Antônio Carlos); Alvarenga (Ernani Alvarenga); Jota Palmeira; Noel Rosa de Oliveira; Ismael Silva (incrível!); Duduca do Salgueiro (Eduardo de Oliveira); Walter Rosa; Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva); Alvaiade (Oswaldo dos Santos); Carivaldo da Motta; Iracy Serra e Pelado da Mangueira (Jorge Alves de Oliveira). O regional que acompanha os compositores/intérpretes é também de primeiríssima qualidade, mas, como era muito comum antigamente, não aparecem os créditos na contracapa, de forma que simplesmente não sabemos quem eram. E, para terminar, a contracapa do disco tem pequenas biografias dessas figuras, escritas por ninguém menos do que Sérgio Cabral. Um deleite.

Mano Décio da Viola (Décio Antônio Carlos) – O número de sambas-enredo que compôs para o Império Serrano já seria suficiente para colocá-lo entre os maiores sambistas de todos os tempos. Mas ele não compõe apenas sambas-enredo. Além de “Saudade do Passado“. Mano Décio (1909) fez centenas de sambas (alguns estão no LP que a Polydor gravou com ele), dirigiu escolas de samba (Recreio de Ramos, Prazer da Serrinha e Império Serrano) e é hoje uma espécie de legenda do samba carioca.

Hernani de Alvarenga – Ele já está perto dos 70 anos de idade, mas continua compondo com o mesmo talento que revelava nos anos 20, quando Paulo da Portela o convidou para desfilar na Vai Como Pode. Em seu primeiro carnaval na escola, um samba da sua autoria é que foi cantado na Praça Onze: “Lá vem ela, chorando/ 0 que é que ela quer?/ Pancada não é, já dei.” No carnaval de 1976, tirava o primeiro lugar num concurso realizado no Rio de Janeiro com um maxixe de sua autoria. O samba que apresenta neste disco foi um grande sucesso na Portela nos aros 50 e, ao ser gravado agora, sofreu correção monetária. No início, um do versos dizia: “Quatro mil e quinhentos cruzeiros não dá” (o salário mínimo era três mil e oitocentos, isto é Cr$ 3,80, atualmente). Hoje, o salário que não dá é de Cr$ 750,00.

Noel Rosa de Oliveira – Nascido no Morro do Salgueiro, filho de Pedro Rosa e com o nome que tem, Noel não poderia dar noutra coisa. “Chica Da Silva“, “Zumbi dos Palmares” e “Só Resta a Saudade” (todos de parceria com Anescar Pereira da Silva) já seriam suficientes para consagrar esse compositor que é também um dos grandes “puxadores” de samba das nossos escolas.

Ismael Silva – Uma das vantagens na pesquisa do samba carioca é que, como gênero urbano, ele é um acontecimento relativamente novo e alguns dos mais importantes nomes de sua formação ainda estão, felizmente, muito vivos. Ismael Silva é um deles. E como se você fizesse uma conferência sobre História do Brasil e apresentasse D.Pedro “Está aqui o Imperador que não me deixa mentir.” Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba – a Deixa Falar – é também um dos responsáveis pela criação do samba de carnaval, esse samba que movimenta a massa. Antes dele e dos seus companheiros do bairro do Estácio de Sá, o samba ainda sofria uma grande influência do maxixe. Foram eles que inventaram um tipo de samba próprio para os foliões se movimentarem no carnaval. Foi parceiro de Noel Rosa e reinou durante muitos anos, sendo disputadíssimo pelos cantores. E continua em plena forma, como revela o samba “Ingraditão“.

Duduca (Eduardo de Oliveira) – Nasceu em Minas no ano de 1926, mas foi registrado no Rio de Janeiro, como carioca. Mora no Morro do Salgueiro desde os sete anos de idade e aos 17 anos, já apresentava na quadra da Escola de Samba Depois eu Digo o seu primeiro samba, feito em homenagem a Elza, uma namoradinha da época. Filho de Paulino de Oliveira (presidente da Depois eu Digo e da Acadêmicos do Salgueiro), Duduca é responsável por grandes sambas que as escolas de samba do Salgueiro cantaram no carnaval. Atualmente, é presidente da Ala dos Compositores dos Acadêmicos do Salgueiro.

Walter Rosa – Martinho da Vila conta que uma das suas grandes alegrias, quando começava a fazer samba, era ser cumprimentado por Walter Rosa, um monstro sagrado do samba carioca desde os anos 50, época em que se transferiu das escolas do Engenho da Rainha para a Portela. A admiração de Martinho continuou, tanto que um dos seus sucessos recentes, “Tudo Menos Amor“, é um samba de Walter e Monarco. Pelos seus inúmeros sambas enredos e sambas de quadra, Walter Rosa é um dos mais expressivos compositores da Portela e do samba carioca.

Nelson Cavaquinho – (Nelson Antônio da Silva) – Esse é gênio e não me ocorre mais nada para dizer sobre ele.

Alvaiade (Oswaldo dos Santos) – Nascido no dia 21 de dezembro de 1913 na Estrada do (é do e não da) Portela, Alvaiade está envolvido em samba desde 1928, quando Paulo da Portela o levou para a Escola de Samba Vai Como Pode, mais tarde, Portela. Já naquela época revelava as qualidades que seriam as suas características até hoje: bom no samba e habilidoso na hora de fazer um discurso. Tanto que, nas suas ausências, Paulo da Portela o designava para receber os convidados ilustres ou representar a escola nas visitas a outros redutos do samba. O seu maior sucesso é “O Que Vier Eu Traço“, o grande êxito de Ademilde Fonseca, mas conseguiu que outras músicas suas se tornassem conhecidas do público, como “Marinheiro de Primeira Viagem“, gravação da dupla Zé e Zilda. Alvaiade, atualmente, integra o Grupo da Velha Guarda da Portela.

Iracy Serra – Onde os sambistas do Salgueiro cantam, “seu” Iracy Serra está presente com o seu violão. É o acompanhador oficial dos compositores salgueirenses. E também um dos mais antigos compositores do morro, companheiro do lendário Antenor Gargalhada (Antenor Santíssimo de Araújo) e parceiro de Pindonga em inúmeros sambas de terreiro e sambas-enredo, como o famoso “Casa do Pequeno Jornaleiro“, que a Escola de Samba Depois eu Digo cantou em 1940, em homenagem à Primeira Dama do País, Dona Darcy Vargas. Quando a Depois eu Digo fundiu-se com a Azul e Branco em 1953, nascendo a Acadêmicos do Salgueiro, “seu” Iracy passou a ser um dos compositores da nova escola.

Pelado (Jorge Alves de Oliveira) – Em 12 carnavais, a Mangueira entrou na Avenida cantando sambas-enredos compostos por Pelado (um deles, “Relíquias da Bahia“, de 1963). Nascido em Mangueira, no Morro de Santo Antônio, Pelado participa do samba (tanto na Unidos da Mangueira como na Estação Primeira) desde menino, tocando instrumentos de bateria. Atualmente, ele é uma das grandes atrações de várias rodas de samba que são promovidas no Rio.

Sergio Cabral
(1976)
contracapa do LP

LADO 1
1 – SAUDADE DO PASSADO
Mano Décio da Viola
(Mano Décio da Viola-Rubens da Silva 4:18
2 – SALÁRIO MÍNIMO
Hernani de Alvarenga
Alvarenga, o Samba Falado 2:54
3 – FELIZ É QUEM SABE ESPERAR
Noel Rosa de Oliveira
Jota Palmeira-Noel Rosa de Oliveira 2:57
4 – INGRATIDÃO
Ismael Silva
Ismael Silva 2:33
5 – CLARA DE OVO
Duduca
Duduca-Pompeu-Noel Rosa de Oliveira 2:16

LADO 2
1 – É POR AQUI
Walter Rosa
Walter Rosa 2:52
2 – JUÍZO FINAL
Nelson Cavaquinho
Nelson Cavaquinho-Élcio Soares 2:40
3 – CONCURSO PARA ENFARTE
Oswaldo dos Santos
Alvaiade 3:27
4 – EU VOU SORRIR
Iracy Serra
Clarivaldo da Motta-Iracy Serra 2:56
5 – RELÍQUIAS DA BAHIA
Pelado da Mangueira
Pelado da Mangueira 2:56

Ficha Técnica
Direção de Produção: Mazola
Direção de Estúdio: Noel Rosa de Oliveira
Técnicos de Gravação: João-Luiz Cláudio-Jairo Gualberto
Estúdio: PHONOGRAM 8 canais
Técnico de Mixagem: Jairo Gualberto
Corte: Luigi Hoffer
Direção de arte: AIdo Luiz
Lay-Out e Arte Final: Nilo de Paula
Fotos: Orlando Abrunhosa