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EU VOU P’RA MARACANGALHA – DORIVAL Caymmi – 1957

8 abr, 2017 | Álbuns | 0 Comentários

A poesia e a música de Dorival Caymmi, ou melhor poderemos dizer a arte de Dorival Caymmi, já é um fato consagrado em nosso país. Quando Caymmi faz um sucesso, ele atinge diretamente a alma do povo brasileiro. Ao escrever “MARCANGALHA“, o baiano, na simplicidade de seus versos e sua música consegue transmitir a filosofia de um James Hilton quando imaginou o famoso Shangri-La de “Horizontes Perdidos” e de outros locais fictícios mas cobiçados por todos.

“SE ANÁLIA NÃO QUISER IR
EU VOU SÓ”

Nem a companheira imaginária impede a ansiedade pelo seu recanto de felicidade.

Neste disco, a ODEON. além de oferecer “MARCANGALHA” aos adeptos de LP, reuniu outras seleções não menos interessantes, todas elas escritas e interpretadas por Caymmi:

SAMBA DA MINHA TERRA
SAUDADE DA BAIA
ACONTECE QUE EU SOU BAIANO
FIZ UMA VIAGEM
VATAPÁ
RODA PIÃO
365 IGREJAS

Aloysio de Oliveira
contracapa do LP

EU VOU PRÁ MARACANGALA…

Maracangalha dista poucos quilômetros de Salvador. Cantavam-na seus habitantes, os carreiros, cortadores de cana, nos seus sambas de terreiro, nos fins de semana, apos árdua jornada de trabalho, como a “grande Bueiro de Duas Cor…!”
Os “Popos”, os “Satuninos” e os “Dornes” se reuniam lá pras bandas do “Pasto Novo” e fazendo círculo no massapé batido, repetiam, ao som de palmas, sem cansar: “Eu sou seu parente…/ Qui é que eu dou a essa muié…”.
Sempre tive a impressão de que o “spiritual” brasileiro nasceu ali nesse recôncavo baiano, ou pertinho dali, no Cassarangongo — antigo reduto de escravos. Como, também, a esperança de que alguém ressuscitasse de algum modo o sentimentalismo daquela gente dos canaviais, plasmando os seus lamentos negros.
O nosso Dorival Caymmi se incumbiu de fazê-lo. Cantou e levou a Maracangalha, sua harmonia, melodia, ao conhecimento de todos os brasileiros. Uma descoberta seguida de um convite: “Eu vou pra Maracangalha. eu vou. Eu vou de chapéu de palha, eu vou. Se Anália não quiser ir, eu vou só. Eu vou só…”.
Se alguém quiser realmente descobrir Maracangalha, essa pérola do baianismo, vá direto até lá como aconselha o poeta — e ali na Maracangalha de tia Mônica, sinhá Justa e seu Bertolino poderá sorver o melhor caldo de cana do mundo; beber pinga da boa; apreciar espetáculo magnífico de queima de um palheiro à noite, cujo clarão se rivaliza com o de Salvador escondida por trás do Monte Socorro; conhecerá os recantos mais quietos da Terra em Pinheiro, Água Boa, São José, Sapucaia; pescará nos rios, taíras, acaras; apanhará jacarés; caçará perdizes, tatus e pacas; ouvirá dentro dos canaviais ou capinzais que margeiam os tabuleiros, o inesquecível canto dos pássaros Caboclo-Linho, Papa-Arroz e Estevão. E, quando sentir o cheiro do barro vermelho, quase cor de sangue, ou de longe ouvir o carro-de-bois cantar nos cocões, saberá porquê Caymmi descobriu Maracangalha e o convida a fazer o mesmo.
“Eu vou prá Maracangalha”, eu vou..
Carybé

MARACANGALHA, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: Orquestra – Arr. e Dir.: A.GNATALLI

SAMBA DA MINHA TERRA, Samba
Dorival Caymmi

SAUDADE DA BAHIA, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

ACONTECE QUE EU SOU BAIANO, Samba
Dorival Caymmi

FIZ UMA VIAGEM, Toada
Dorival Caymmi
Acomp.: Orquestra – Arr. e Dir.: A.GNATALLI

VATAPÁ, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

RODA PIÃO
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

365 IGREJAS, Samba
Dorival Caymmi

Odeon – MOEB-3.000, LP
Dorival Caymmi : Violão – faixas: 2,4,8
Alexandre Gnattali e sua Orquestra / Arranjador: Alexandre Gnattali – faixas: 1,5
Léo Peracchi e sua Orquestra / Arranjador: Léo Peracchi – faixas: 3,6,7