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Os sambas de 1969, assim como os de 1968 no primeiro LP de sambas-enredo do carnaval carioca, foram gravados ao vivo. Sobressaem-se no álbum o coral de pastoras, cantando ao som da bateria.

Cada escola gravou seu samba de seu jeito. Umas utilizaram o coral cantando nas duas passadas do samba ao som da bateria – numa saudosa cadência – sem acompanhamento de instrumentos de corda, mas com um apito sempre presente. Outras utilizaram procedimento semelhante ao disco de 1970: o intérprete cantando o samba na primeira passada ao som de pandeiros, cuícas ou tamborins (mais um cavaco na faixa portelense), com o coral entrando na segunda.

A safra de 1969 eu a considero simplesmente a melhor de todos os tempos, ao lado da de 1976. Provavelmente nunca mais ouviremos num único carnaval sambas do quilate de “Heróis Da Liberdade“, “Treze Naus“, “Brasil, Flor Amorosa De Três Raças“, “Bahia De Todos os Deuses“, “Iaiá Do Cais Dourado“, “Gabriela, Cravo E Canela“… Resumindo: é uma obra-prima atrás da outra.

Detalhe que o samba sagueirense não foi incluído no disco de capa acima. Ele foi comercializado num compacto à parte.

REPERTÓRIO

Capa do LP: Festival De Samba Gravado Ao Vivo Vol.2 - Sambas Enrêdo Das Escolas De Samba - 1969IMPÉRIO SERRANO – É, amigo! É uma obra-prima atrás da outra. Agora falo de ninguém menos do que “Heróis Da Liberdade“. O samba de 1969 da Império Serrano foi composto por ninguém menos do que Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola (mais Manoel Ferreira). E o samba possui uma melodia lírica e conclamadora, mais uma letra para lá de envolvente. A parte “♫ É a revolução em sua legítima razão” incomodou os militares (o AI-5 havia sido recém revogado), que obrigaram a escola a trocar a palavra “revolução” por “evolução”. Com justiça aparece em todas as listas dos melhores sambas-enredo de todos os tempos. O samba foi regravado por artistas como Jorginho do Império (filho de Mano Décio da Viola), Martinho da Vila, João Bosco (para a Coletânea Sony), Abílio Martins e Roberto Ribeiro.

MOCIDADE INDEPENDENTE – Um samba bastante característico dos anos 50 e 60, com uma melodia lírica (que novidade este tipo de melodia nessa safra de 1969), sem originalidades e uma letra não tão extensa, mas que descreve didaticamente o homenageado (o historiador Francisco Adolfo Varnhagen) de maneira a colocar-lhe os mais requintados elogios. Um samba bonito da Mocidade e, no disco, a bateria de Mestre André mais uma vez entra em cena com uma envolvente paradinha no trecho “♫ Embelezando ainda mais o cenário do Rio de Janeiro”.

SÃO CARLOS – Samba bem extenso, de letra extensa e didática, mas de uma beleza incomum e uma melodia tão maravilhosa que faz da audição do hino da São Carlos de 1969 algo muito prazeroso. Realmente os compositores estavam inspirados em 1969. “Gabriela, Cravo E Canela” teve uma bela regravação de Dominguinhos da Estácio para a Coletânea Sony da escola em 1993.

PORTELA – Só de ouvir “Treze Naus” sinto-me com olhos marejados e até com tonturas tamanha a comoção que sinto de tanta emoção que este samba me desperta. Ao redigir o comentário ao samba portelense de 1969, já me sinto bastante trêmulo. É que este samba-enredo é simplesmente divinal. Não seria exagero qualificá-lo entre os cinco melhores de todos os tempos, pois trata-se de um samba das antigas, com uma melodia doce, cadenciada e fantástica, acompanhado a um belo “lararará” servindo de refrão central e final. A letra é simples, mas conta com uma perfeita clareza os feitos de Pedro Álvares Cabral e suas treze naus. No disco, a gravação é sensacional. Silvinho do Pandeiro fazia a sua estréia como intérprete oficial da Portela cantando com maestria singular o samba na primeira passada. Na segunda, o coral de pastoras o interpreta com coração, numa garra incomum. “Treze Naus” é, sem dúvida, um momento único do carnaval.

MANGUEIRA – A verde-e-rosa, na época, estava acostumada a cantar sambas de letra poética e melodia lírica. “Mercadores E Suas Tradições” não foge de maneira nenhuma à regra. O hino mangueirense de 1969 é belo, com uma melodia para lá de emocionante, de variações bem sucedidas e dois refrões fantásticos (o último “♫ Glória a estes bravos…” é um primor). O começo do samba também possui uma melodia sensacional, pois o trecho “♫ Abriu-se/A cortina do passado/Neste palco iluminado/Onde tudo é carnaval” é daqueles cuja audição emociona qualquer tipo de bamba.

UNIDOS DE LUCAS – Samba de letra extensa, mas com uma melodia bem variada e envolvente. Na primeira parte do samba, sua melodia é mais descontraída. Já na segunda, ela se torna mais lírica. E seu refrão principal é contagiante “♫ Na Bahia tem, tem, tem, tem/Na Bahia tem, oh Baiana/Água de Vintém”.

EM CIMA DA HORA – Belo samba! Cadenciado e de melodia bem variada, envolvente e, sobretudo, clássica (o lalaiá não falta). Sambas-enredo como esse, sem dúvida, despertam saudade!

IMPERATRIZ – Até há pouco tempo atrás, eu considerava com toda a certeza e segurança o samba de 1989 (“Liberdade, Liberdade”) como o melhor da Imperatriz Leopoldinense. Isso até ouvir “Brasil, Flor Amorosa De Três Raças“, obra-prima de Carlinhos Sideral e Mathias de Freitas. Esse samba de melodia singular, com um primor de letra – bons tempos em que a poesia reinava num samba-enredo – fez eu rapidamente mudar de opinião quanto a melhor obra da agremiação de Ramos. É difícil de encontrar um outro samba mais lírico do que o hino da Imperatriz de 1969, que teve uma bela gravação no disco original pelas pastoras e uma regravação melhor ainda em 1993 na Coletânea Sony da escola feita por Tuninho Professor. “Brasil, Flor Amorosa De Três Raças” talvez seja o samba-enredo com as melhores variações melódicas da história, e seus dois refrões (principalmente o central) são autênticas obras de arte. Só um detalhe: originalmente é cantado “dos garimpeiros aos canaviais”. Na regravação, “garimpeiros” foi trocado por “garimpos”.

VILA ISABEL – Em mais um samba de Martinho da Vila para a escola, desponta em “Iaiá Do Cais Dourado” uma melodia original, bastante envolvente e cativante, sendo um pouco semelhante a uma cantiga. Zé Ferreira realmente estava conseguindo revolucionar o samba-enredo. Uma das maiores obras-primas da Vila Isabel, sem dúvida nenhuma.

Marco Maciel / sambariocarnaval.com

FAIXAS

(CID.007, LP)

A1. Império Serrano
Heróis Da Liberdade
Silas de Oliveira / Mano Décio / Manoel Ferreira

A2. Mocidade Independente
Vida E Glória De Francisco Adolfo Varnhagen
Claudino N. Costa

A3. Unidos de São Carlos
Gabriela, Cravo E Canela
Sidney da Conceição / Velha / Geninho

A4. Portela
As Treze Naus
Ary do Cavaco

A5. Ritmos das Escolas

B1. Mangueira
Mercadores E Suas Tradições
Darcy / Jurandyr / Hélio Turco

B2. Unidos de Lucas
Rapsódia Folclórica
Tolito/N. Russo / Pechincha

B3. Em Cima da Hora
Ouro Escravo
Normi de Freitas / Jair Santos

B4. Imperatriz Leopoldinense
Brasil Flor Amorosa De Três Raças
Matias de Freitas / Carlinhos Sideral

B5. Unidos de Vila Isabel
Iaiá Do Cais Dourado
Martinho / Rodolfo