Avatar… e a Selva Transformou-se em Ouro Mangueira, 1979

Avatar... e a Selva Transformou-se em Ouro - Mangueira 1979

Avatar... e a Selva Transformou-se em Ouro - Mangueira 1979A Mangueira, a nossa Escola, foi buscar o cacau para o Carnaval deste ano. Sei que os seus pesquisadores visitaram o Sul da Bahia, e, nas andanças pelas antigas Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, concluíram que havia brasiliana, aventura e beleza na saga do cacau.

Ignoro, porém, de quem partiu a ideia. Parece-me certo que, na crista do morro carioca, o sambista devia ter o chocolate na boca quando procurava inspiração para o tema. O chocolate, entretanto, é apenas o término industrial de unia operação agrícola que começa na selva e na primeira metade do século XIX. Os caminhos dessa operação – reanimando o homem e o cenário na movimentação histórica regional — esclarecem porque temos, agora, o cacau na Mangueira. […]

Samba-Enredo

Autores: Rato do Tamborim/Tolito/Ananias / Intérprete: Juventude Samba Show

Vem do céu
Todo esplendor
A transformação em ouro
Da selva que Deus criou
Onde a mata virgem
Cacaueira
Que a mãe natureza despontou
Neste solo rico e fecundo
Onde o plantio se alastrou

Tem mulata pessoal
Na colheita do cacau

Amazônia…
Amazônia foi a região
Onde surgiu
Incentivando a industria
Cacaueira
Como fonte de riqueza do Brasil

E na Bahia…
E na Bahia onde o braço forte
Na lavoura prosseguiu
Motivado pelos bravos camponeses
No trabalho poderoso
Do Brasil

Tem mulata pessoal
Na colheita do cacau

A justiça manda que se reconheça a preocupação cultural da Mangueira na seleção dos enredos. Uma preocupação que, sendo cultural, é por isso mesmo brasileira. E, se a crônica carnavalesca da Escola atesta essa preocupação, reafirma – a flagrantemente a escolha do cacau para o tema deste ano. É possível que na variação dos produtos agrícolas — e no ano que parece destinado à revalorização da agricultura — nenhum outro supere o cacau como motivação artística.

Lembraria, como exemplo imediato, os ficcionistas e os poetas que, à sua sombra, constituem um legítimo agrupamento literário.

Mas, no encontro com o cacau, Mangueira não se decidiu por considerá-lo um dos polos mais importantes de nossa economia e do nosso comércio de exportação. Decidiu-se, certamente, por um extraordinário universo humano e social que se impunha como base de um autêntico complexo cultural e artístico.

A palavra certa, pois — explica o encontro de Mangueira com o cacau —, é precisamente esta: arte. E isso porque, para a Escola, o Carnaval se identifica com a criatividade artística exatamente porque é uma festa popular e livre. E já não se pode discutir que, por tudo o que representa e reprojeta, sobretudo em música e coreografia, a Escola é uma das mais legítimas manifestações de arte coletiva.

Poder-se-á mesmo dizer que o seu samba-enredo, para o atual tempo brasileiro, corresponde ao auto popular dos fins do século XVIII. É de fato, como o auto popular, um espetáculo público trabalhado e realizado pelo próprio povo.

E, a exemplo ainda do auto popular tão democrático em suas raízes — anônimo, coletivo, popular —, reflete uma realidade social que a tipicidade regional configura. Não quer inventar, é certo. Mas, porque toma a realidade para auscultá-la nos valores culturais, transfigura-a artisticamente sem comprometê-la como espaço geográfico, condição social e tempo histórico.

Não foi por mais nada, aliás, que o cacau chegou à Escola de Mangueira. E, porque trouxe o cacau, do Sul da Bahia para o Carnaval carioca de 79 — fazendo-o identificar-se com a Escola inteira, em todas as alas, de ponta a ponta -, é que se deve acreditar que Mangueira tenha uma excepcional percepção. E percepção que se prova com o grande desfile através dos quadros, da música e da letra.

Os seus compositores e artistas, os bons compositores de Mangueira, converteram em música, canto e imagens o que foi o mundo do cacau como história de sangue e violência ao fundo da selva. E, quando superam as velhas figuras da saga — o desbravador, o caçador, o índio, o plantador de cacau, o coronel —, atualizam a lavoura com os novos agentes como, por exemplo, o barcaceiro e o estufeiro.

Não falta, porém, o lado poético que se documenta com a própria floresta do cacau. E o que se pode afirmar, finalmente, é que o cacau está na Mangueira porque Mangueira é uma Escola tão especial que a si mesma se vê como um veículo de divulgação para as regiões e as coisas mais características do Brasil.

E isso, sem que se faça necessário qualquer argumento, é cultura. E cultura bem democrática porque feita pelo povo para o povo.

Adonias Filho

P.S. Textos e imagens acima, Revista Estação Primeira de Mangueira – Carnaval 1979 (fonte: Marcelo O’Reilly/Acadêmia do Samba)

P.S. Áudio do LP: Sambas-de-Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1 Carnaval 1979 (LP – AESEG – Top Tape) / áudio formato mp3/128Kbps

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