Coisas Nossas Mangueira, 1980

Coisas Nossas - Mangueira 1980

Coisas Nossas - Mangueira 1980Escolher enredo, na Mangueira, é ato coletivo, é resolução da Comissão de Carnaval, e não imposição de um carnavalesco. Assim, decidir qual seria o Carnaval de 1980 levou tempo, muitas reuniões e o examinar de inúmeros enredos até quando Ciro Ramos sugeriu ‘Coisas Nossas‘.

Coisas Nossas‘ era apenas um título. Faltava desenvolver o enredo, mas, após muitas discussões, ‘Coisas Nossas‘ deixou de ser mera sugestão para surgir como um enredo desenvolvido pela Comissão de Carnaval. E o enredo se desenvolveu em forma de painel para se dividir em onze quadros, abordando aspectos da vida brasileira – cultura, esperanças, crenças, diversões, costumes etc. […]

Samba-Enredo

Autores: Carlos Roberto/Ney da Mangueira/Aylton da Mangueira / Intérprete: Juventude Samba Show

Excitando a mente a poesia
O poeta descobria
Momentos de raro prazer
E nessa linda melodia
Coisas nossas dia-a-dia
A Mangueira vem trazer

Juruna, fantasia e frevo
Petrobras sondando o mar
Coisas que ora descrevo
E ainda há mais pra narrar

Frutas de todas as cores
Num pomar de pureza
Os mais diversos sabores
Obra da mãe natureza

E no campinho a gurizada
Atrás de uma bola a rolar
Mata no peito, dá lençol, faz embaixada
Se torce o pé vai a rezadeira curar

Rosto colado a noite inteira
Baila-se na gafieira
Se há bebida, há comida e violão
Tem sempre um pagode do bom

Quem vai mais, quem vai mais
Pode parar que o galho é valete e ás

O primeiro quadro – ÍNDIOS – é uma homenagem ao Cacique Juruna e ao nosso desejo de proteger as reservas indígenas.

Quando o mundo sofre consequências da crise energética a esperança de a Petrobras encontrar petróleo no MAR é coisa nossa.

Musical é o povo brasileiro e a Mangueira escolheu o FREVO para representar as nossas músicas e as nossas danças.

TROPICÁLIA é sol, alegria, pomar multicor. É o descansar na rede e o jeitinho de resolver problemas. TROPICÁLIA, o 4° quadro do enredo, é uma exaltação ao tropicalismo que é “coisa” que não se entende, que não se explica, mas que é muito nossa.

Brasil Tri Campeão. Futebol. Glória e alegria de um povo. Ora, se não fosse a PELADA inexistiriam nossos campeões e jamais a Jules Rimet teria sido coisa nossa.

É certo que somos invadidos pela música estrangeira e nas dissonantes discotecas parte da nossa juventude se diverte. É certo, também, que a música dolente reagiu e com toda a torça voltou a GAFIEIRA, muito antiga coisa nossa.

O jogo de RONDA, em que pese a proibição, jamais deixou de existir nos morros, nas esquinas e nos becos, pois, o carioca sempre entendeu que ronda é coisa nossa.

Oitavo quadro: SUPERSTIÇÕES – Sexta-fera 13 dá azar, pé de coelho, ferradura e trevo de quatro folhas dão sorte, enquanto faz mal gato preto atravessar nosso caminho, vassoura atrás da porta espanta visita, arruda tira mal olhado…

As tradicionais baianas, as nossas tias, evoluirão no quadro REZADEIRAS, é o agradecimento dos Mangueirenses pelas curas realizadas através das rezas aos Orixás.

PAGODE não se programa, nasce espontaneamente onde existe violão, malandros, mulatas, feijão com tudo dentro, cachaça, vontade de cantar e dançar.

BAILE DE CARNAVAL é o último quadro, com piratas, tirolezas, colombinas e tantas outras fantasias. A Estacão Primeira de Mangueira, coisa nossa, que alegra o carnaval de rua terminará o desfile saudando aqueles que brincam no carnaval de salão.

Após desenvolver o enredo, a Comissão de Carnaval passou a se preocupar com o visual, pois hoje não se ganha carnaval somente com samba, bateria. pastoras e harmonia. É preciso satisfazer valores que não são dos que fazem samba e sim dos que o consomem.

Democraticamente a Comissão de Carnaval resolveu que a Escola viria com trés alegorias — Plataforma Submarina, Gafieira e Concurso de Fantasias – muitos tripés, estandartes e adereços.

Visual pede artista plástico e, disso sabendo, a Comissão de Carnaval foi até a Ilha do Fundão, bateu às portas da Escola de Belas Artes e para o morro da Mangueira trouxe as professoras Liana Silveira e Ecila Cérne a fim de que ambas dessem cor ao enredo, ‘figurinassem’ as fantasias e criassem as alegorias e adereços.

E elas tonalizaram os verdes e rosas criando uma gradação, além de utilizarem a neutralidade do branco como forma de valorizar as cores da Mangueira, pois, o uso do branco quebrará a interferência cromática da Avenida no verde e rosa e, assim, o contraste será aumentado sobressaindo as cores da Escola.

Abram alas. Aí vem a Estação Primeira de Mangueira, que é povo e para o povo apresenta COISAS NOSSAS.

P.S. Textos e imagens acima, Revista Estação Primeira de Mangueira – Carnaval 1980 (fonte: Marcelo O’Reilly/Acadêmia do Samba)

P.S. Áudio do LP: Sambas-de-Enredo das Escolas de Samba do Grupo I Carnaval 80 (LP – AESEG – Top Tape) / áudio formato mp3/128Kbps

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