Yes, Nós Temos Braguinha Mangueira, 1984

Yes, Nós Temos Braguinha

Yes, Nós Temos Braguinha- Mangueira 1984Meio século de carnaval. 50 anos de presença e participação na mais importante expressão da alegria de um povo. O autor dos sucessos que ficaram na memória do carnaval carioca, o maior espetáculo da Terra. A Mangueira foi buscar na figura imortal do compositor João de Barro, Braguinha, o tema central do seu enredo para o carnaval de 1984.

O Braguinha parceiro de Noel, de Pixinguinha. O amigo de Ari, de Almirante, de Lalá. Contemporâneo de uma era romântica do Rio dos velhos tempos. Da Galeria Central. Do velho Café Nice. Da malandragem da Lapa. Do Rio dos bondes de cem réis. Da Vila. De Copacabana e Paquetá. Braguinha da Chiquita Bacana. Da Loirinha. E de tantas recordações para os que evocam os tranquilos tempos das décadas gloriosas dos carnavais passados. […]

Samba-Enredo

Autores: Jurandir/Comprido/Ja-já/Arroz/Hélio Turco
Intérprete: Jurandir

Vem ouvir de novo o meu cantar
Vem ouvir as pastorinhas
A luz de um pássaro cantor
Yes, nós temos Braguinha

Bela época
Quando o poeta floresceu
Oh! Meu Rio
Então cantando amanheceu
Num fim de semana em Paquetá
Ouvi carinhoso amei ao luar
Laura… que não sai da minha mente
Morena a saudade mata a gente

Hoje tem fogueira
Viva São João
Mané fogueteiro
Vai soltar balão

Carnaval… O povo vibra de alegria
Ao cantar a tua poesia
Será… que hoje tudo já mudou
Onde andará o Arlequim tão sonhador
Chora Pierrot… chora
Se a tua Colombina foi embora
Samba… A mulata é a tal
Salve a loirinha
Dos olhos claros de cristal

É no Balancê… Balancê
Eu quero ver balançar
É no balanço
Que a Mangueira vai passar

Um tema que propiciará á Mangueira desfilar no asfalto da Passarela do Samba com suas coloridas, alegres e contagiantes alas expressando toda a vitalidade da alma das ruas e do povo desta terra. Um mar verde e rosa de agitação, levantando poeira e relembrando os mil carnavais do glorioso Braguinha. Yes, Nós Temos Braguinha; Um canto de ternura e fé.

O DESFILE

A Mangueira mostrara três momentos da vida de Braguinha:

Bela Época — Com o despertar da Bela Época nascia para o cenário brasileiro o pássaro João de Barro. Ainda muito cedo ele se encantaria pela música, fazendo dela o seu dia a dia. Uma alusão memorável à época em que Braguinha veio ao mundo para se tornar presença eterna.

Festa Junina — Ninguém pode negar a presença marcante de Braguinha na música junina, no folclore musical da festa dos santos. A evocação do calendário, com Antônio, Pedro e João á frente de tudo. Os balões, as bandeirinhas, casamento da roça, alegria e descontração. A pureza das noites estreladas do hinterland com fogueiras, batata doce, milho assado, quentão e o amor da caboquinha morena. Um momento divino na música do imortal compositor de brasilidades.

Carnaval — É a parte mais diversificada do desfile 84. Exatamente por tematizar a pujança da música carnavalesca de Braguinha. É no carnaval que ele exalta a vida, a mulher, a brejeirice de nossa gente, com o tempero e o sabor de sua poesia bem brasileira. E aqui são lembrados seus eternos sucessos: ‘A Estrela Dalva‘, ‘Balancê…’, ‘Touradas em Madri‘, ‘Pirata da Perna de Pau‘, ‘Tem Gato na Tuba‘, ‘China Pau‘, ‘Chiquita Bacana…‘, ‘Pepita Guadalajara‘ e outros. Uma síntese do grande carnaval de Braguinha.

A Mangueira vai encerrar o desfile com uma dose (superdose) de saudosismo. Algo que se tornou uma preocupação permanente do nosso Braguinha: ‘Será que o carnaval começa a morrer?’ Saudades de uns tempos que já não voltam. De épocas idas e vividas. Das serpentinas. Do confete multicolorido e do lança-perfume de metal dourado. Evocações que o levam a mais uma indagação: ‘- Onde anda a Colombina?’ ‘E onde andará seu Pierrot?’

Dentro de tantas incertezas, a Mangueira tem uma resposta para milhões de pessoas que a verão desfilar pela tevê ou das arquibancadas da Marquês de Sapucaí:

YES, NÓS TEMOS BRAGUINHA

(Jornalista Manoel Tavares)

COMO FOI O DESFILE

O carnaval de 1984 traria significativas mudanças para a Mangueira e sobretudo para os desfiles das escolas de samba. Era a inauguração do Sambódromo, projetado por Oscar Niemeyer, erguido num tempo recorde de 4 meses para acabar com o monta e desmonta das arquibancadas metálicas e de madeira.

O regulamento também apresentava modificações. Pela primeira vez os desfiles do grupo principal (Grupo 1A) seriam divididos em dois dias: domingo e segunda-feira. Cada dia de desfile teria seu grupo de jurados e sua respectiva campeã. No sábado seguinte, conhecido hoje como “Desfile das Campeãs” as três primeiras colocadas dos desfiles de domingo e segunda-feira se juntariam às duas primeiras colocadas do desfile do Grupo 1B para um novo desfile disputando o Super Campeonato.

Pelos lados de Mangueira, pela primeira vez em sua história, a Escola contava com a ajuda de um patrono, na figura de José Petrus, conhecido como Zinho. Max Lopes, foi mantido como Carnavalesco e a escola optou por trazer um enredo bastante popular, uma homenagem ao compositor Braguinha. Suas músicas sobre as festas juninas e as marchinhas de carnaval dariam o tom para o carnaval da Mais Querida. Depois de muito tempo, os mangueirenses estavam convictos de que a escola desceria o morro para reconquistar o título, perseguido há mais de uma década.

Após um emocionante discurso lido na concentração, a Verde e Rosa, última a desfilar na segunda-feira, iniciou a sua esperada apresentação. O destaque Luiz Antônio veio abrindo a passagem da Estação Primeira como porta estandarte.

Dona Zica era a perfeita imagem da felicidade mangueirense à frente da primeira alegoria, que trazia uma árvore com formas femininas e um banco de praça, onde sentado, (foto no topo) Braguinha saudava emocionadamente o público. A alegoria em questão se tornaria praticamente um símbolo do carnaval de 1984, tanto pela empatia de Braguinha, quanto pelo desfile histórico que a Mangueira iniciava.

Logo após, a comissão de frente se apresentava formada por casais representando a Belle Époque, iniciando a primeira parte do enredo, que retratava a época do nascimento de Braguinha. Uma bela alegoria representando um gramofone era seguida por uma extensa ala com figurinos na cor rosa que também remetiam à Bela Época. Encerrando o setor, surge uma bela alegoria representando uma praça da época.

O segundo setor era dedicado às festas juninas. Bandeirinhas, quadrilha, balões e casamento caipira foram mostrados em belos figurinos e alegorias, destacando músicas como “Mané Fogueteiro” e “Capelinha de Melão”.

O terceiro e mais extenso setor retratava as músicas carnavalescas de João de Barro. Abrindo esta parte do desfile estava o lendário Delegado, em sua despedida do posto de mestre-sala acompanhando Mocinha. O magnífico casal estava à frente de uma ala de casais de Mestres-Salas e Porta-Bandeiras mirins. Logo após vinha a bateria da Estação Primeira com seu inconfundível compasso do surdo sem resposta. Trajavam roupas semelhantes às dos casais de mestres-salas e porta-bandeiras, com motivos carnavalescos. Na frente da bateria, sambavam Beth Carvalho, Eduardo Conde, Rosemary e Gargalhada.

A esta altura o público já estava completamente tomado pelo belo samba cantado na inconfundível e potente voz de Mestre Jamelão, que neste ano recebeu o título de “Cidadão Samba”. Composto por Hélio Turco, Jurandir, Comprido, Arroz e Ja-já, o samba caiu no gosto popular, fazendo com que o canto das arquibancadas fosse tão forte e contagiante quanto o dos desfilantes mangueirenses.

As inesquecíveis marchinhas de Braguinha começaram a ser lembradas no grande desfile. A cantora Marlene, foi a destaque no carro da música “A mulata é a tal”. Alcione veio à frente da ala das baianas, que rodavam felizes como as “Pastorinhas” com uma belíssima fantasia. O carro que representava a música “Balancê” trouxe o travesti André Gasparelli interpretando Gal Costa, causando dúvidas em muitos nas arquibancadas se era realmente a cantora que estava no alto da alegoria.

Em seguida veio a ala das crianças, com fantasias representando estudantes, com Dona Neuma e Terezinha Sodré à sua frente. A alegoria da música “Chiquita Bacana” foi uma das mais divertidas com Vilma Dias (famosa pela abertura do programa Planeta dos Homens) saindo de uma banana descascada por um gorila (recriando a cena do programa). Logo após a marchinha “Touradas em Madri” foi mostrada no desfile com alas de espanholas e toureiros, sendo uma delas coreografada e uma alegoria que trazia Sidney Magal representando um espanhol.

Júnior, lateral-esquerdo da Seleção Brasileira também estava neste setor. A ala coreografada foi o único momento de deslize na evolução da escola, pois sua coreografia em certos momentos abria alguns “claros” na avenida, mas nada que manchasse a grandiosa apresentação que a escola fazia. Uma ala de piratas e um navio com belas mulheres representaram a música “Pirata da perna de pau”. Após a alegoria da música “Tem gato na tuba” que trazia uma escultura que lembrava o ministro da agricultura Delfim Netto, veio talvez o mais belo setor do desfile, plasticamente falando, que mostrava a música “China pau”, onde o dourado era a cor predominante.

Encerrando o desfile, ainda foi mostrada a marchinha “Tem marujo no samba” com uma alegoria que trazia a escultura de um pierrô e alas com arlequins, pierrôs e colombinas, encerrando o grande e maravilhoso baile de carnaval da Estação Primeira na Sapucaí.

Curiosamente a bateria não entrou no Box da Av. Salvador de Sá, talvez pelo grande número de componentes, se preocupando com o tempo de desfile. Ao final do desfile, com a agremiação evoluindo na inovadora Praça da Apoteose para o público dos setores 6 e 13, a Mangueira iniciou um momento histórico nos desfiles das escolas de samba. Ao invés de dispersar a escola, a direção de harmonia, comandada pelo lendário Xangô da Mangueira, fez o retorno pela pista de desfile para o delírio do público folião que seguiu a escola. A imagem do povo de misturando às alas e carros num grande bloco carnavalesco, sem dúvidas é uma das mais belas e emocionantes da história do carnaval brasileiro, provando que a Estação Primeira de Mangueira é a mais bela expressão da folia e do povo carioca.

Na apuração do desfile de segunda-feira realizada no Maracanãzinho, finalmente o resultado tão esperado: Mangueira CAMPEÃ. Depois de dez anos de jejum, a cidade voltava a se colorir em verde e rosa, para a alegria de todos os mangueirenses e do povo carioca. O sambistas formaram um bloco e foram até o morro, numa grande festa. “O gigante adormecido acordou. Mangueira unida jamais será vencida” dizia uma faixa carrega pelo povo. Apenas de dois julgadores a Mangueira não ganhou a nota máxima: Jorge Sales em comissão de frente e Wolf Mais em conjunto. Ambos deram a nota 9. A escola totalizou 208 pontos na contagem final, sete pontos à frente da segunda colocada, a Mocidade Independente.

Participariam do desfile do super-campeonato no sábado seguinte, além da Mangueira campeã de segunda-feira: Mocidade, Beija-Flor, Portela (campeã de domingo), Império Serrano, Caprichosos de Pilares, Unidos do Cabuçu e Acadêmicos de Santa Cruz.

No desfile do Super-Campeonato a Mangueira começou a apresentação com uma faixa onde se lia:
“Agradecemos ao povão que não desanimou durante 10 anos esperando a grande vitória. O carnaval é de vocês! MANGUEIRA”.
Após a faixa, a Mangueira prestou uma homenagem à outra campeã: Portela, a mais antiga co-irmã e “velha companheira” da Estação Primeira desde o primeiro desfile, em 1932. Toda a emoção do desfile de segunda-feira de repetiu e mais uma vez a Mangueira emocionou a todos na passarela do samba.

O resultado não poderia ser outro: Mangueira foi consagrada como a SUPER CAMPEÃ do carnaval de 1984, título este que apenas a Estação Primeira possui, fazendo mais uma vez explodir de alegria o Morro de Mangueira e o Rio de Janeiro. O Sambódromo foi inaugurado com a vitória de uma autêntica escola de samba.

Fontes:

  • Imagem do topo: Braguinha é homenageado em desfile da Mangueira de 1984 Foto: Paulo Moreira / Agência O Globo;
  • Textos e imagem lateral: Revista Estação Primeira de Mangueira – Carnaval 1984 – Marcelo O’Reilly/Acadêmia do Samba;
  • Áudio do LP: Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A Carnaval 84 – LP – Top Tape 503.6021 / áudio formato mp3/128Kbps;
  • Texto: COMO FOI O DESFILE: Renato Moço/Site: memoriamangueirense.com;

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