Abram Alas Que Eu Quero Passar Mangueira, 1985

Abram Alas Que Eu Quero Passar - Mangueira, 1985

Abram Alas Que Eu Quero Passar - Mangueira, 1985CHIQUINHA GONZAGA,

A MADRINHA DO CARNAVAL

Maior vulto feminino na história da música popular brasileira e uma das grandes expressões da luta pelas liberdades no Pais. Chiquinha Gonzaga (1847-1935) pagou caro pela sua ousadia e pioneirismo, principalmente com o esquecimento. Por isso, após seis anos de pesquisa para resgatar sua memória, parecia-me fundamental transformar esse trabalho em enredo de escola de samba, por entender que esta era a forma mais legitima de narrar uma história que tem como protagonista o povo brasileiro e sua cultura.

O momento da homenagem não poderia ser mais oportuno; fevereiro de 1985 coincide com o cinquentenário de morte da compositora e maestrina carioca Chiquinha Gonzaga. Da homenagem se apossou a tradicional Estacão Primeira de Mangueira, mais uma vez apostando no que é brasileiro e popular. […]

Samba-Enredo

Autores: Jurandyr/Hélio Turco/Darcy
Intérprete: Jurandyr

Abram Alas Que Eu Quero Passar - Mangueira, 1985É carnaval
O samba faz vibrar a multidão
Lá vem Mangueira
Não posso conter a minha emoção
Vamos reviver o Rio antigo
Onde Chiquinha se fez imortal

Oh! Deusa da folia
Rainha do meu carnaval

Eu sou da lira
Não vou negar
O “Abram alas que eu quero passar”
Só não passa a saudade
A saudade que ficou no seu lugar

II

Liberdade
Oh! Falsa realidade
Liberdade
O sonho foi morar n’outra cidade
Desprezou a burguesia
E o requinte dos salões

Abraça a boemia
E deixa na boca do povo
Mais de mil canções

Roda baiana
Levanta a poeira do chão
Roda baiana
Nas cores do meu coração

É carnaval…

Posse merecida desde o momento em que me dirigi à quadra da Escola, numa manhã de domingo do mês de maio, e apresentei a Pedro Paulo Lopes, Coordenador da Comissão de Carnaval, uma sinopse do enredo. No ato ele percebeu que Chiquinha e Mangueira se mereciam, não fosse um homem ligado ao Carnaval desde o berço. Daí para o convite a Eloy Machado, que, por sua vez, convidou a arquiteta Bia Dumont, foi um passo concretizado tão logo a Comissão de Carnaval e a Diretoria, reunidas, votaram por unanimidade no tema-enredo.

Contratados por Manoel Nunes Areas (Manola) e José Petrus (Zinho), respectivamente Vice-Presidente e Presidente do Conselho Deliberativo, os dois carnavalescos cuidaram do desenvolvimento do enredo e deu-se início a um trabalho que envolveria nos meses seguintes milhares de pessoas.

ENREDO

Ao apostar no tema francamente brasileiro e popular, a Mangueira mantém seu compromisso de escola tradicional, sempre preocupada com a preservação das raízes culturais. O enredo deste carnaval é a própria síntese do “popular competente”, como a ele já se referiram.

Abram Alas Que Eu Quero Passar” é um pedido que a Escola faz. Para que ela possa homenagear a carioquissima Chiquinha Gonzaga, Madrinha do Carnaval, parodiando a marcha de sua autoria: “O Abre Alas“, primeira canção tipicamente carnavalesca. O enredo é antecedido de um prólogo, “O Carnaval de Hoje”, anunciando a chegada da escola e a homenagem que ela vai prestar.

O primeiro ato: “O Império“, mostra a vida na Corte e se refere ao ambiente ao qual a Sinhazinha Chiquinha Gonzaga estava destinada e que ela termina por desprezar; o segundo: “Surge a Grande Pianista” mostra, entre outras passagens da vida de Chiquinha, o “Cine-Teatro Show Mangueira”, apresentando a vida e a obra da compositora e maestrina, aquela que deixou de ser uma dama da Corte para se tornar Rainha da Praça Tiradentes.

Sua contribuição decisiva para o Carnaval, balizando-o com a primeira canção, é o motivo de abertura do “Carnaval do Passado“, fechando assim o enredo e lembrando que “O Abre Alas”, Chiquinha Gonzaga e Mangueira estão presentes neste Carnaval, como estiveram ontem, estão hoje e estarão sempre.

SAMBA-ENREDO

Como trilha sonora do enredo “Abre Alas Que Eu Quero Passar“, o samba escolhido para homenagear Chiquinha Gonzaga contém os pontos fundamentais da história que se desenvolve na Avenida: sua vida e sua obra. “O Carnaval de Hoje” (prólogo) anuncia a chegada da Mangueira e a homenagem: em seguida, o samba evidencia o desprezo e a renúncia de Chiquinha à vida a ela destinada na Corte (primeiro ato): sua opção pela boemia e a fecunda obra musical por ela deixada, retratando o Rio antigo, compõem o segundo ato; por fim. no terceiro ato, é destacada a sua vigorosa contribuição a festa do povo — “O Carnaval do Passado”.

O samba não poderia deixar de lembrar também a saudade que dela restou, exaltando então a liberdade, o anseio e as conquistas de Chiquinha Gonzaga, legados a todos.

Belo, espontâneo e sincero, o samba-enredo de Jurandyr. Helio Turco e Darcy honra a “parceria” Chiquinha Gonzaga. Os compositores se preocuparam também em estabelecer uma harmonia de canto em que as pastoras possam alcançar uma oitava acima da voz masculina, proporcionando uma maior riqueza no coral.

COMO FOI O DESFILE

Depois do vitorioso desfile de 1984, as expectativas eram as melhores possíveis para 1985. A diretoria da tradicional Verde e Rosa confiou à Edinha Diniz a pesquisa do seu enredo para o carnaval daquele ano, intitulado: “Abram Alas Que Eu Quero Passar”, que homenagearia a maestrina Chiquinha Gonzaga, grande figura carnavalesca do início do século XX. Zinho continuou ajudando financeiramente a escola, o que contribuiu para que o sonho do bicampeonato continuasse vivo no coração dos mangueirenses. Eloy Machado, figurinista e grande vencedor de concursos de fantasias, era a aposta da Estação Primeira para o desenho e confecção das alegorias e fantasias do desfile. Para tanto, o mesmo fez uma viagem aos Estados Unidos para conversar com George Lucas, afim de utilizar alguns efeitos especiais nas alegorias da Mangueira.

O samba, composto por Jurandir, Hélio Turco e Darcy da Mangueira rapidamente caiu no gosto popular, o que aumentava o favoritismo da escola. Na segunda-feira anterior ao desfile, chuvas torrenciais que castigaram a cidade acabaram danificando seriamente as alegorias da Mangueira que teve de correr contra o tempo para aprontá-las para o desfile. Mesmo com todo o esforço, um dos carros mais esperados, o “Palácio das Águias” não ficou pronto a tempo e desfalcaria o desfile da Verde e Rosa.

Entre todos os contratempos, com certeza o maior foi a ausência de Jamelão, que numa turnê nos Estados Unidos, não conseguiu chegar a tempo de levar o samba de sua escola na avenida. A missão então foi incumbida a Jurandir, que fez um belo trabalho à frente do carro de som da escola.

Esquecendo os problemas, a Mais Querida começou o seu desfile pouco antes das sete da manhã (devido a sucessão de atrasos ocorridos naquele ano, já que sua apresentação estava marcada para as quatro da manhã) com a vibração do público, que sabia o samba e mesmo aqueles nas arquibancadas ainda distantes o cantavam com entusiasmo. Na frente da escola vinha uma ala com várias bandeiras nas cores verde e rosa saudando o público. Em seguida, Dona Zica apresentava a comissão de frente desfilou com 14 homens que trajando indumentárias com notas musicais acompanhavam Leci Brandão interpretando Chiquinha Gonzaga. O abre-alas era a representação de um grande chafariz que trazia mulheres seminuas com enormes leques rosas mexendo-os de um lado para o outro.

A seguir começava a primeira parte do enredo, chamada de “O Carnaval de Hoje”, exaltando o carnaval atual, resultado de várias transformações e que teve uma importante contribuição da homenageada. Fantasias referentes à personagens famosos da folia foram mostradas. Destaca-se neste setor uma alegoria com três grandes esculturas do Zé Carioca, trazendo Vilma Dias como destaque.

A segunda parte do desfile, intitulada de “O Império”, mostrava a vida de Chiquinha na Corte. Fantasias que remetiam às vestimentas da época foram mostradas precedidas por uma alegoria representando uma carruagem. Neste mesmo setor veio a ala das crianças trazidas por Dona Neuma e a Velha Guarda.

Com uma belíssima alegoria espelhada, que trazia Chiquinha com seu piano em sua parte superior, inicia-se a terceira parte do enredo, chamada de “Surge a Grande Pianista”. Onde foram retratadas suas composições para os cines-teatro do Rio de Janeiro e o reconhecimento de seu talento como maestrina. Também foi mostrada sua luta pela abolição da escravidão no Brasil. Nesta parte do desfile veio a bateria, com sua marcação inconfundível. Nesta parte do desfile, a escola já apertava o passo para não estourar o tempo, devido ao seu enorme contingente. Tal correria, fez com que Lilico e Mocinha se apresentassem de forma muito rápida para os julgadores e também fez com que a bateria não entrasse no box. Alguns claros já apareciam na pista, e a Mangueira começava a se tornar vítima de seu próprio gigantismo. Fechando o setor, duas alegorias, uma representando a frente de um navio e outra representando a parte de trás, com algumas alas entre elas, mostravam o período que Chiquinha passou na Europa e o seu retorno ao Brasil.

O último setor do enredo, de nome “Carnaval do Passado”, mostrava o carnaval do início do século XX, quando Chiquinha compôs “Ó abre-alas”, a primeira e uma das mais famosas músicas de carnaval. Corsos, palhaços, diabos, melindrosas, malandros eram as motivações das fantasias nesta parte do enredo.

O melhor momento do desfile foi a Praça da Apoteose, onde a escola, livre da correria da pista, evoluiu harmoniosamente para o público dos setores 6 e 13, dando um grande show e mostrando a grande escola de samba que é.

Com aproximadamente 5000 componentes, a evolução da escola se mostrou por várias vezes confusa na avenida. Uma das maiores reclamações dos mangueirenses foi a ausência do verde, visto em apenas algumas poucas alas da escola. Somada a pouca criatividade de algumas alegorias e dos figurinos elaborados, a Mangueira se salvou como sempre graças aos seus componentes que não deixaram de cantar em nenhum momento.

O resultado da apuração refletiu o desfile aquém das expectativas. A Mangueira que sonhava com o bicampeonato, acabou num decepcionante sétimo lugar com 207 pontos.

Fontes:

Relacionados:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *