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Martinho da Vila, 1980 – Batuque na Cozinha

8 maio, 2017 | Álbuns

DA VILA
Uma noite, numa dessas aventuras cariocas que formam parte de um cotidiano cheio de graça, fomos, Rubem Braga, Eli Alfoun, Prósperi e eu, julgar os samba-enrêdo da E. S. Unidos de Vila Isabel, Vila Isabel, prima do Meyer, minha conhecida de infância, mas ha tempos abandonada. Os sambas da Escola era muitos. A disputa perto do feroz. Um dos participantes enquanto nos servia cerveja, ameaçava retirar sua ala do desfile caso o tal Martinho ganhasse de novo. O ano acho que era 69 e o tal de Martinho já ganhara os concursos de 67 e 68. Começou a cantoria, o páreo, o concurso, o festival, ou lá que nome tenha. Nós, jurados, na situação difícil de sempre. Em meia dúzia de mesas á direita do terreiro de cimento (valha a contradição dos termos) uma ala ruidosa aplaudia ou vaiava os candidatos, e alguém nos disse que o grupo era comandado por um “maioral”, que logo imaginamos parcial e ferocissimo. Mas o ambiente para nós, da banca de meritíssimos, era realmente quente. Rubem Braga, que sabe mais por Rubem Braga do que por demônio, reparou, a um certo momento, que um dos sambas tinha nada mais nada menos do que sete compositores e me sugeriu, maneiro: “Vamos votar neste. Pelo menos na hora da briga tem mais gente do nosso lado.” Ao fim e ao cabo Rubem leu o veredito, no qual, depois de, diplomaticamente falar na “imensa dificuldade que tinhamos tido no julgamento, dada a extraordinária qualidade dos concorrentes” o nosso voto ia para a composição: IAIÁ DO CAIS DOURADO de Martinho da Vila. Pra nossa sorte a ala do “maioral” prorrompeu em aplausos frenéticos . Não houve briga e daí pra cá Martinho só fez progredir, melhorando dicção e nível de cantor, composição e busca de temas, apresentação e comunicação. Há os que falam, há os que dizem, há os que tentam colocar Martinho num samba já era, pouco rebuscado, os que argumentam com erudição erudita pra derrubar a popularidade do popular. Uma pretensão que chega, algumas vezes, ao supremo de querer ensinar folclore ao povo. Pra mim, não entro nessa: a música se chama popular e basta. Popular (defino) é o que o povo gosta. O povo gosta de Martinho da Vila.

MILLÔR FERNANDES
contracapa do LP

LADO 1
– BALANÇA POVO (Martinho da Vila) – 3.01
– CHUVA MIÚDA (Martinho da Vila) – 1.54
– NA OUTRA ENCARNAÇÃO (Martinho da Vila) – 1.51
– QUEM LHE DISSE QUE EU CHOREI? (Antonio Grande) – 1.54
– MAREJOU (Martinho da Vila) – 2.29
– SAMBAS DE RODA E PARTIDO-ALTO (Adaptação de Martinho da Vila) – 5.35

LADO 2
– BATUQUE NA COZINHA (João da Baiana) – 3.01
– MARIA DA HORA (Martinho da Vila) – 2.42
– ONDE O BRASIL APRENDEU A LIBERDADE (Martinho da Vila) – 3.10
– JUBIABÁ (Martinho da Vila) – 2.52
– SAUDADE E SAMBA (Martinho da Vila-Last) – 3.00
– CALANGO LONGO (Maninho da Vila) – 2.07

Ei gentes
Tô aí de novo batucando na cozinha. Comigo está todo o Nosso Samba e nesta cozinha tem até mocotó.
A comida levou três meses para ser cozida mas o resultado esta aí.
Alô! Donga
Se ligue na turma de cozinheiros:
Violões – Rosinha de Valença, Geraldo Vespar e Manoel da Conceição.
Som Rural – Prof. Menezes (viola), Maestro Chiquinho (acordeon) e Marçal no triângulo.
No fogão, mexendo as panelas, Wilson das Neves, Carlinhos do Pandeiro, Jorginho do Mano Décio, Geraldo Bongô, Hermes, Alberto, Zeca da Cuíca, Doutor, Jorginho Arena, Paulinho das Tumbas e até o Aridalto.
O tempero comprado pelo Gilberto ficou por conta do Copinha, Marinho do Baixo, Manoel Araújo, Don Salvador, Jorginho da Flauta, Zé Roberto, Clélio, Netinho, Marco Rupe, Jaime e Pinduca, além das cordas do Peter e dos corais do Jacob e do Severino.
Waltinho isgueri-gueri ficou no come-dorme pois quem lavou a louça foi o Rildo Hora, melhor produtor do momento; quem apimentou a bóia foi o Maestro Severino Filho.
O problema meus amigos, é botar a bolacha no prato, levar para a sala e comer com os ouvidos.
MARTINHO DA VILA, julho de 1972

PS – Ei, ia me esquecendo: O Manoel do Cavaquinho deu a maior força e a idéia do título foi do compadre Zeno.
Êste trabalho é dedicado ao Dr. Edmundo Pires de Vasconcelos.

FICHA TÉCNICA

Coordenação Geral:
RAMALHO NETO
Coordenação Artística:
RILDO HORA
Arranjos:
SEVERINO FILHO
Arte-capa e contra-capa:
ELIFAS ANDREATO
Fotografia:
CLÓVIS SCARPINO
Técnico de gravação:
WALTER DE OLIVEIRA