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O CD “Cria do Samba”, disco que marca a estreia de Nego Alvaro na carreira solo, esbanja vertentes do mais carioca dos gêneros musicais. Tem o clássico samba de roda, onde está a raiz do artista, o dolente, partido alto e até samba-rock. A obra, idealizada por Moacyr Luz, tem produção de Pretinho da Serrinha – que também fez os arranos nos três sambas-rock do álbum – e reúne expoentes da nossa música, como Carlinhos 7 Cordas, Mart’nália, Sereno e Rildo Hora. Um time de primeira para dar mais brilho ao trabalho de Nego Alvaro, que, aos 27 anos, já é um músico experiente.

Ele começou a tocar profissionalmente aos 15 anos e se acostumou a subir os degraus do mundo da música. Integrante do Samba do Trabalhador e da banda de Beth Carvalho, Alvaro comanda, há quase dois anos, o Mafuá no Quintal, na Zona Norte carioca. Em todos esses palcos, apresenta o talento que mostra em seu primeiro disco solo, seja com os instrumentos de percussão, diante do microfone ou como compositor. Das 11 faixas do disco, seis têm sua assinatura.

A música que abre e dá nome ao CD faz parte da vida de Alvaro: “Cria do samba”, parceria dele com Moacyr Luz e Mingo Silva, seus colegas de Samba do Trabalhador. É que a canção, que surgiu de ideia de Moacyr, é inspirada em Alvaro, que cresceu em Bangu, no subúrbio carioca. Diz a letra: “♫ Eu sou cria do samba/E sou subúrbio às “pampa”, sim/Da domingueira, andar descalço, chinfrim/Zé Pereira, sou baticum, butiquim/Abrideira, meu santo cuida de mim”.

Ela faz parte do disco “Moacyr Luz & Samba do Trabalhador – dez anos e outros sambas”, de 2015. E nesta gravação, é cantada apenas por Alvaro. No disco “Cria do Samba”, Alvaro divide a faixa com Moacyr Luz. Um luxo.

De frente pro mar”, de Alvaro, Victor de Souza e Jonas Felipe, é a segunda música do CD. É um samba animado e que fala de amor: “♫ Esse amor é o que vai nos levar pro céu”. Essas duas primeiras têm arranjos de Carlinhos 7 Cordas.

A terceira faixa é “Chuva no sertão”, parceria de Alvaro com Gabrielzinho de Irajá, Pablo Macabu e Paulo Henrique. A música, que tem arranjos de Rafael dos Anjos, é um samba dolente. É calmo, mas não tanto quanto uma oração, embora este samba seja uma prece, um pedido a Deus. Ele diz: “♫ Senhor, ‘tão’ querendo calar a nossa voz/Mas eu sei que o senhor luta por nós/Por favor, não me deixa sozinho/Tira as pedras do meu caminho/Numa prece desata esses nós”.

Estranhou o quê?” é a música que abriu portas para Nego Alvaro, como cantor, no mundo artístico. Ele a cantou no CD e DVD “Moacyr Luz e Samba do Trabalhador – ao vivo no Renascença Clube”, gravado em 2012 e lançado em 2013. De ritmo marcante, a letra pergunta, em tom provocante: “♫ Estranhou o quê?/Preto pode ter o mesmo que você”.

É um canto de afirmação contra o racismo, e no disco de Nego Alvaro, ocupa a faixa de número 4.

Em seguida vem “Hino vira-lata”. E na faixa 6 está “Marca registrada”, de Alvaro, Sereno e Pablo Macabu. O música, inclusive conta com a participação de Rildo Hora, o maestro do samba, e Sereno, um dos imortais do Fundo de Quintal. É suave, bem no estilo das grandes composições que surgiram sob a tamarineira do Cacique de Ramos, o tradicional bloco que serviu de escola para Alvaro.

A música ensina: “♫ Do fundo dos nossos quintais/Nasceram as mais ricas canções/E bem nos faz recordar de gerações em gerações/Ah.. o poder da canção/Nos deu o dom de encantar o mundo/É bom viver e cantar/É bom viver, recordar/É bom viver e cantar… pro mundo”.

Na sequência, na sétima faixa, Nego Alvaro segue prestando tributo ao quintal no qual foi talhado, preparado para o bom samba. Ele gravou um pout-pourri com três músicas de bambas consagrados por lá: “Eu prefiro acreditar” (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Marquinhos PQD), “A voz do Brasil” (Sombra, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila) e “Nascente da paz” (Sombrinha e Adilson Vitor).

A faixa 8 tem música e letra do artista. “Pra te encontrar” registra o desafio de um bamba apaixonado, que pensa em fazer de tudo para ter sua amada por perto: “♫ Eu não sei o que fazer/Mas eu vou te conquistar/Nem que eu tenho que ser a luz mais bonita que o luar/Nem que eu tenho que ser o mais belo no pássaro no ar/Nem que eu tenho que ser um canto sublime e te encantar/Nem que eu tenho que ser um suave, doce paladar”.

O samba “Tá querendo”, na faixa 9, parceria de Alvaro com Marcelinho Moreira e Leandro Fab, esbanja a malemolência do bom malandro, a sabedoria do sambista que flerta com poesia. Veja só: “♫ Tá’ querendo o que de mim?/’Tá’ querendo/’Tá’ querendo um dengo, eu dou/’Tá’ querendo/’Tá’ querendo um cheiro, Ó, flor/’Tá’ querendo”.

Extra II (o rock do segurança)”, de Gilberto Gil, é a décima faixa.

E a música que encerra o disco de Nego Alvaro é uma inédita de Moacyr Luz, “Circular”, e remete ao subúrbio carioca, berço desse sambista de primeira. E esse samba, bastante sincopado, conta com a especialíssima participação de Mart’nália. A letra passeia pelo Rio, principalmente pelo miolo da Cidade Maravilhosa:

“♫ Carioca da Gema
A pé da Boca do Mato
Na Vila da Penha
Bicão e Sumidouro
Travessa do Sereno, Sal
O Sentaí, atrás da Central
Tem Linha Amarela, na mão que desce à Maré
Largo da Cancela
No Mangue, no Tanque
No charme em Madureira
Estação Primeira”.

Desfilando do samba dolente ao samba-rock, o disco de Nego Alvaro faz o ouvinte riscar o salão, seja dizendo no pé ou na palma da mão.

Encarte do CD CRIA DO SAMBA - Nego Alvaro, 2016 (Coqueiro Verde)

Encarte do CD

CONTRACAPA

O baluarte Moacyr Luz, faz as honras e apresenta Nego Álvaro:

“- Foi o Junior de Oliveira, neto do mestre Silas e integrante do Samba do Trabalhador, quem sugeriu: Põe o Álvaro pra cantar o “Estranhou o quê?”.
Passei o samba numa gravação de voz e palmas pra não impor uma condição.
Pouco tempo depois, o grupo tocando na Casa Rosa, sentei no alpendre com vista pro palco e, de repente, escuto uma introdução familiar…
Me levanto surpreso.
Era o Nego bancando os primeiros versos de uma ironia social.
Não tive dúvidas, estava nascendo um sambista de verdade, Álvaro Santos, que cismo de chamar Nego Álvaro.”

Pretinho da Serrinha também dá seu recado:

“- Conheci o Álvaro na gravação do EP do grupo Soul+Samba, foram poucas ideias, papo de gravação.
Um tempo depois quando eu estava arregimentando uma rapaziada pra tocar comigo, meu irmão Quininho chegou com Nego Álvaro – que veio com um repique de mão diferenciado, um sorriso contagiante e uma energia daquelas que a gente gosta de ficar perto!…
Hoje em dia posso dizer que esse cara que se tornou um dos meus melhores amigos, e também um grande artista.
Boa sorte meu irmão!”.

FICHA TÉCNICA

Nego Alvaro: voz e repique de mão
Pretinho da Serrinha: Direção musical e percussão
Rildo Hora: Arranjos
Carlinhos 7 Cordas: arranjos e violão de 7 cordas
Rogerio Caetano: violão de 7 cordas
Leandro Pereira: Violão de 7 cordas
Bebe Kramer: acordeão
Marlon Sette: Arranjo de metais e trombone em: “Estranhou o quê?
Rodrigo Revelles: sax tenor
Diogo Gomes: trompete
Camilo Mariano: bateria
Jamil Joanes: baixo
Sidão Santos: baixo
Fred Camach: banjo
Rafael dos Anjos: cavaco e violão
André Siqueira: cuíca
Thiaguinho da Serrinha: arranjos, cavaco
Fabio Miudinho: surdo, pandeiro
Flavinho Miudo: surdo
Jorge Quininho: tamborim e cuíca
Marechal: tantã
Misael da Hora: teclado
Marcio Vanderlei: bandola
Dirceu Leite: sopros
Simone Costa, Joana Rychter, Jorge Alexandre, Mingo Silva e Julio Oliveira: coro e palmas.

(texto: mis.rj.gov.br)

FAIXAS

(Coqueiro Verde, CD)

01. CRIA DO SAMBA
Moacyr Luz / Mingo Silva / Nego Alvaro
part.: Moacyr Luz

02. DE FRENTE PRO MAR
Nego Alvaro / Victor Souza / Jonas Felipe

03. CHUVA NO SERTÃO
Gabrielzinho de Irajá / Nego Alvaro / Pablo Macabu / Paulo Henrique

04. ESTRANHOU O QUÊ?
Moacyr Luz

05. HINO VIRA-LATA
Emicida / Beatnick / K-Salaam

06. MARCA REGISTRADA
Sereno / Nego Alvaro / Pablo Macabu
part.: Sereno

07. POUT PORRI
EU PREFIRO ACREDITAR – Zeca Pagodinho / Arlindo Cruz / Marquinhos PQD
A VOZ DO BRASIL – Sombra / Sombrinha / Luiz Carlos da Vila
NASCENTE DA PAZ – Sombrinha / Adilson Vitor

08. PRA TE ENCONTRAR
Nego Alvaro

09. EXTRA II (O ROCK DO SEGURANÇA)
Gilberto Gil

10. TÁ QUERENDO
Marcelinho Moreira / Nego Alavaro / Leandro Fab

11. CIRCULAR
Moacyr Luz
part.: Mart’nália