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Nei Lopes, 1983 – Negro Mesmo

17 abr, 2017 | Álbuns

Nei Lopes não pede passagem. Abre seu caminho á toque de música, livros e atitudes. Podem “cobrar” e “questionar” à vontade. Nei Lopes recusa o cativeiro — muitas vezes, dourado — do mutismo conivente com o saque e a depredação culturais, arranca a autocomplacente mordaça do “nada a declarar” (a mais hipócrita das maneiras de dizer que vale tudo), afasta os antolhos consentidos da irresponsabilidade “criadora”.

Mas os magos da aldeia global, os manipuladores da opinião pública, ao contrário do que dizem, não querem nada com polêmicas, que poderiam atrapalhar a fugaz trajetória de seus esquálidos cometas e o minguado frenesi de suas comedidas (e bem patrocinadas!) loucuras. Portanto, tentarão ignorar esse disco — o que, de resto, seria mera repetição do que fizeram com o disco anterior do Nei e do grande Wilson Moreira.

Não vai ser mole apagar o mérito desse disco, mesmo pra sabotadores de escol e arreios importados como os que estão agindo por aqui.

O disco não joga conversa fora, não tem papo furado, não sugere róseos esoterismos em camisa-de-força, não parte pra choradeira dos “injustiçados”, não baba o ovo de ninguém, não se mete a “enciclopedices”…

Nesse disco, minha gente, Irene prefere não entrar no céu porque o coroa da portaria é um pé-no-saco.

Podem tirar o algodão dos ouvidos, prezados sobreviventes: não tem batida “funky”.

Um disco risonho e franco, mas com a indispensável malandragem — Zumbi dos Palmares com a corda de Pedro Mico no bolso.

O que ABSOLUTAMENTE não quer dizer que o Nei tenha adotado a “tática de aproveitar a brecha no sistema para corroê-lo por dentro”. Nem vamos entrar na má-fé quase sempre inerente a essa jogada. Mas não custa nada ressaltar sua burrice. Quando um quilombola desfila de Lima Barreto no enredo “A Luta do Negro no Brasil” estamos diante de belas refrações históricas, um mergulho em águas fundas. Já o punkareta que imita “The Shits” reflete-se num espelho de circo e, pior, conforma-se com a deformação, uma besta quadrada imitando um quadrado metido a besta — ingênua barrigada na decadente piscina pop (depois que John Lennon tirou a tampinha).

Recomenda-se esse disco especialmente àqueles oportunistas da desesperança que já se preparavam pra faturar em cima do aparente encontro “dialético” de verdades e “mintchuras”.

Um disco negro de respostas claríssimas para a opacidade perplexa dos umbigos coloridos. Respostas que comovem e encantam porque podem auxiliar a compreensão do que estamos vivendo (e ouvindo), e porque, de certa forma, sempre estiveram na obra dos bambas.

No primeiro sentido, Nei é moderno. No segundo, um clássico.

Falou, Nei. Mesmo. E que todos nós, seus irmãos, possamos aprender um pouquinho com você da maravilhosa arte de ser do contra

Aldir Blanc
contracapa do LP

LADO A
1) A EPOPÉIA DE ZUMBI – 5’14
(Nei Lopes)
2) LUNDU CHORADO – 2’59
(Nei Lopes)
3) TIA EULALIA NA XIBA – 4’00
(Nei Lopes/Cláudio Jorge)
4) VOU TE BUSCAR – 2’46
(Nei Lopes)
5) JONGO DO IRMÃO CAFÉ – 4’35
(Wilson Moreira/Nei Lopes)

LADO B
1) MOQUECA DE IDALINA – 3’46
(Nei Lopes)
2) EFUN OGUEDÉ – 3’29
(Wilson Moreira/Nei Lopes)
3) SOLUÇÃO URGENTE – 5’30
(Nei Lopes/Carlão Elegante)
Participação Especial: Carlão Elegante
4) ÁGUA DE MORINGA – 3’45
(Wilson Moreira/Nei Lopes)
5) QUE ZUNGU – 3’54
(Nei Lopes)

Coordenação de produção: Paulo Albuquerque
Produção executiva: Nei Lopes/Leonardo Bruno
Arranjos de base e regências: Leonardo Bruno e Rogério Rossini (2A, 4A. 2B)
Arranjos vocais: Leonardo Bruno
Técnico de gravação: Paulo Sérgio (Chocolate), Rancho Estúdio, Rio
Aux. de gravação: Celso
Mixagem Paulo Sérgio (Chocolate), Rancho Estúdio, Rio, Flávio Barreira, Estúdio Eldorado, São Paulo
Capa e fotos: Mello Menezes