Nélson Cavaquinho 1973, LP - Odeon

Nelson Cavaquinho - 1973, LP - Odeon SMOFB 3809

Nelson Cavaquinho - 1973, LP - Odeon SMOFB 3809SÉRGIO CABRAL – Nélson, você tem certos parceiros que são “quentes” outros não. Com quem você gosta de fazer música?

NÉLSON CAVAQUINHO – Eu comecei fazendo música sozinho. Naquele tempo, havia os cobras, a turma do Café Nice, o Wilson Batista, aquele pessoal. Um dos meus primeiros parceiros foi o Evaldo Rui que fez comigo: ‘Aquele Bilhetinho’.

SÉRGIO – Mas o nome dele não aparece no samba, aparecem outros.

NÉLSON CAVAQUINHO – Mas ele fez a letra. Tivemos um encontro na casa da Elizeth Cardoso e ficamos amigos. Ele fez depois outra letra para melodia minha. Foi um dos melhores letristas que conheci. Agora, o meu parceiro mesmo, é o Guilherme de Brito, meu grande amigo, e está neste disco catando comigo pela primeira vez. […]

SÉRGIO – Como foi que vocês se conheceram?

NÉLSON CAVAQUINHO – Eu estava sempre em Ramos. Naquele tempo eu não estava bem. Eu tinha me casado e o casamento ia mal. Bem que meus pais me avisaram: “- Nélson, ainda é muito cedo para você se casar”. Minha casa não tinha nada. Nem sabonete para tomar banho. Poxa, estou mudando de assunto. Naquele tempo eu estava tocando violão num botequim perto de Ramos. Começamos a fazer música e continuamos até hoje. Ficamos amigos também. As vezes eu chegava de surpresa na casa do Guilherme e a família dele colocava uma esteira para eu dormir.

SÉRGIO – Nesse disco você grava pela primeira vez tocando cavaquinho. A quanto tempo você não tocava esse instrumento que, afinal, lhe deu outro sobrenome?

NÉLSON CAVAQUINHO – Comecei tocado cavaquinho na Gávea. Os meus primeiros cachês, de cinco mil réis, foram ganhos com cavaquinho, nuns shows arranjados pelo Ricardo, que já morreu – Deus o tenha no Reino da Glória. Havia uma turma que fazia choro para derrubar, mas eu fiz um que derrubou todo mundo. Ai, eles passaram a acreditar mais em mim. Há pouco tempo, chegou um camarada no Teatro Opinião e falou assim: “- O Nélson, eu não vim aqui para ver você tocar violão, eu quero é ver você tocar cavaquinho”. O cara estava de pileque, estava cheio de alpiste, de maneira que queria que queria me ver tocando cavaquinho. E eu falava: “- Rapaz, eu não toco mais isto”. Quase acabaram botando o cara para fora do teatro.

SÉRGIO – Mas você acabou gravando com cavaquinho.

NÉLSON CAVAQUINHO – Pois é, o cara perguntava: “- Você não é o Nélson Cavaquinho? Tem que tocar cavaquinho”. Por causa disso acabei tocado nesse disco um choro meu chamado ‘Caminhando’.

SÉRGIO – E como você se sentiu tocando cavaquinho?

NÉLSON CAVAQUINHO – Eu me senti bem. O Dino do Violão falou assim pra mim: “- Nélson, sola o choro para eu aprender”. Eu toquei e o Dino entro direitinho com o violão. E fui em frente. Porque pobre não vai só pra frente quando a polícia corre atrás não. Fui em frente mesmo.

SÉRGIO – Você compôs esse choro com cavaquinho ou com violão?

NÉLSON CAVAQUINHO – Olha, Sérgio, eu nunca fiz uma música pegando instrumento, sabe? As minhas melhores músicas como ‘Notícia’, foram feitas no botequim. As vezes eu sonho que estou fazendo uma música bonita, mas quando acordo não me lembro mais de nada. Agora, alguns amigos vão me dar um gravador de presente no dia do meu aniversário, 29 de outubro. Vai ficar mais fácil. Gravo a melodia, depois ponho letra.

SÉRGIO – Você vai fazer 62 anos, não é?

NÉLSON CAVAQUINHO – Não, 63.

SÉRGIO – Que é isso, Nélson? 62 Anos.

NÉLSON CAVAQUINHO – É 63 mesmo.

SÉRGIO – Em que ano você nasceu?

NÉLSON CAVAQUINHO – Em 1911.

SÉRGIO – Então, 62 anos.

NÉLSON CAVAQUINHO – Que bom rapaz, ganhei mais uma ano de vida. Meu velho morreu com 72 anos. Não sei se chegarei lá ou não. Eu espero chegar lá, se Deus quiser.

SÉRGIO – Mas como é que você faz para se lembrar da melodia, quando você compõem no bar, por exemplo, já meio de pileque?

NÉLSON CAVAQUINHO – Quando eu gosto mesmo, não me esqueço. As vezes faço uma acorde no violão e penso assim: “por esse acorde vou me lembrar amanhã da melodia”.

SÉRGIO – Esse disco está muito bom, inclusive porque você aparece tocando violão em quase todas as músicas.

NÉLSON CAVAQUINHO – É. O Pelão fez questão que eu tocasse violão também. A minha voz, você sabe, é rouca mesmo. Mas o… como é que é mesmo o nome daquele homem lá da América do Norte? Ah, é o Armstrong, ele também era rouco. Há pessoas que gostam mais da minha voz do que de muitos cantores por aí. Não sei porque, acho que é porque eu sinto. Há cantores que mataram a minha música. Eu tenho sentimento quando canto.

FAIXAS:

A1. Juízo Final
Nélson Cavaquinho/Elcio Soares

A2. Folhas Secas
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito

A3. Caminhando
Nélson Cavaquinho/Nourival Bahia

A4. Minha Festa
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito

A5. Mulher sem Alma
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito

A6. Vou Partir
Nélson Cavaquinho/Jair Costa


B1. Rei Vadio
Nélson Cavaquinho/Joaquim

B2. A Flor e o Espinho
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito/Alcides Caminha
Se Eu Sorrir
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito
Quando Eu me Chamar Saudade
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito
Pranto de Poeta
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito
p/ Guilherme de Brito

B3. É Tão Triste Cair
Nélson Cavaquinho

B4. Pode Sorrir
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito

B5. Rugas
Nélson Cavaquinho/Ary Monteiro/Garcéz

B6. O Bem e o Mal
Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito

B7. Visita Triste
Nélson Cavaquinho/Anatalicio/Guilherme de Brito

Fontes:

  • Texto: Contracapa do LP;
  • Áudios: Nelson Cavaquinho – 1973, LP – Odeon SMOFB 3809 / Formato mp3/320Kbps;

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