As Flores em Vida Nelson Cavaquinho 1985, LP - Eldorado

As Flores em Vida - Nelson Cavaquinho 1985

As Flores em Vida - Nelson Cavaquinho 1985Nélson Cavaquinho e eu já varamos muitas madrugadas juntos durante um tempo de minha vida. Por isso posso falar de cadeira desse compositor. Não como crítico, historiador ou repórter, mas como companheiro de boêmia, aprendiz de sua linguagem e conhecedor de sua obra.

Como companheiro, acumulo estórias sobre essa figura singular do povo: não as folclóricas, já repetidas muitas vezes por quem ouviu falar ou essa ou aquela de passados longínquos, mas as com as quais convivi, vi acontecer, participei como personagem. […]

Poucas vezes vi pessoa tão terna no tratar com seus semelhantes, com a gente simples e humilde (prostitutas, marginais, bêbados, mendigos, trabalhadores) que povoa seu mundo cotidiano. Vi Nélson ganhar cachês e distribui-los inteiros entre essa gente, num começo de manhã, ficando sem dinheiro para voltar pra casa. Conheci e me espantei com o Nélson filósofo de depois da décina dose de qualquer bebida.

Passava a vida tão a limpo numa mesa de bar, que intelectuais se curvavam diante de sua lógica e visão do mundo. Senti o homem religioso que ele é e a cada momento, com sua imensa fé e sua conversa infindável sobre o mistério da morte. Querendo, tálvez, convencer-se a si próprio que conversará com seu Deus um dia. Vi o Nélson promíscuo em sua missão inusitada pelo meretrício. Vi muitas faces desse homem. E a convivência pacífica e pura, dentro de seu coração, de seus santos e demônios, virtudes e pecados, ânsias e tranquilidades.

Como aprendiz, suponho-me suspeito para falar de seu talento. Considero Nélson o sambista popular que mais me arrebatou e emocionou, com seus temas extremamente originais, estranho ás vezes, mas belos e de fácil assimilação. Melodias vigorosas e inconfundíveis. Versos profundos de marcada vivência. Versos de filosofia. De poesia lírica. De malandragem. Versos moleques de bom-humor como é ele próprio. Ele não fez senão o que ele é de verdade. Nunca fugiu de sua linha. Nunca saiu de seu caminho. É, com letras maiúsculas, o VERDADEIRO COMPOSITOR POPULAR.

E finalmente, como conhecedor de sua obra, só posso provar isso, qualquer dia desses, em alguma roda-de-samba de mesa de botequim onde ele esteja, cantando, de cor, o que ele puxar em seu violão. E com o mesmo timbre de voz. Porque foi do mesmo barro da sua que a minha voz foi feita. Nossas vozes vieram do fundo do poço da noite. Não é à toa que me chamam de filho do Nélson Cavaquinho quando canto.

Portanto

Sua benção meu pai.

Paulo César Pinheiro

FAIXAS

Devia Ser Condenada
Nelson Cavaquinho/Cartola
p/ Nelson Cavaquinho

Dona Carola
Nelson Cavaquinho/Nourival Bahia/Walto Feitosa
p/ Chico Buarque de Hollanda

Não Te Dói a Consciência
Nelson Cavaquinho/Ari Monteiro/Augusto Garcez
p/ Paulinho da Viola

Quem Chora Sempre Tem Razão
Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito
p/ Nelson Cavaquinho

Aquele Bilhetinho
Nelson Cavaquinho/Augusto Garcez/Arnô Canegal
p/ Cristina Buarque

História de Um Valente
Nelson Cavaquinho/José Ribeiro
p/ João Bosco

Ninho Desfeito
Nelson Cavaquinho/Wilson Canegal
p/ Nelson Cavaquinho

Rugas
Nelson Cavaquinho/Augusto Garcez/Ari Monteiro
p/ Beth Carvalho

Folhas Secas
Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito
instrumental p/ Toquinho

Pecado
Nelson Cavaquinho/Ligia Uchôa
p/ Carlinhos Vergueiro

Minha Honestidade Vale Ouro
Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito
p/ Nelson Cavaquinho

Quando Eu Me Chamar Saudade
Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito
p/ Carlinhos Vergueiro-Chico Buarque-Paulo César Pinheiro-Bebel-Nelson Cavaquinho-Paulinho da Viola-Beth Carvalho-João Bosco-Mauro Duarte-Cristina Buarque

P.S. áudio playlist formato mp3/128Kbps

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