Flores em Vida Nelson Sargento 2002, CD - Selo Radio Mec

Flores em Vida // Nelson Sargento 2002, CD - Selo Radio Mec

Já não era sem tempo, está saindo pelo selo da Rádio MEC o disco “FLORES EM VIDA“. Se for considerar os discos de inéditas dele lançados comercialmente no Brasil, o último foi em 1979(!). Se for considerar os demais, há ainda o “ENCANTO DA PAISAGEM” que foi feito para o mercado japonês em 1986 e relançado por aqui silenciosamente pela RioArte, e um feito para um tal de Clube de Criação de São Paulo em 1990. O selo da Rádio Mec está resolvendo esta injustiça com este novo disco.

É um disco romântico, foi um projeto de sua companheira Evonete e Nelson parece em alguns momentos interpretar como se fosse uma declaração de amor. Quase todas as canções são dolentes sambas-canção que falam de amor, com exceção do político samba-enredo que encerra o disco. Algumas músicas merecem destaque. “O REMORSO VAI ATRÁS” coloca o personagem na original posição de pedir à amada que não o perdoe. Nelson filosofa em “FÉ EM DEUS” com um quê de Cartola, como a bela “QUANDO EU TE VEJO PASSAR“. “MENTIA” é uma bacana parceria com o bandolinista Pedro Amorim, que merece ser cantada nas rodas de samba. Antes do samba-enredo final, ainda louva os velhos carnavais na marcha rancho “A MESMA FANTASIA“. […]

A produção caprichada é de João de Aquino, que além de tocar, reuniu um time da pesada formado por Márcio Almeida (cavaquinho), Pedro Amorim (bandolim), Josimar Monteiro e Paulão (7 cordas), Gordinho, Esguleba, Duarte e Ronaldo Mattos (percussão), Fernando Merlino e Kiko Furtado (piano e teclado), Flávio Pereira (baixo elétrico), Fernando Pereira (bateria), Guaucus Xavier (sax), Jessé (trompete) e Dirceu Leite (flauta). O disco conta ainda com a participação especial de Emílio Santiago. Os arranjos são bem bacanas, mesmo um certo excesso de teclados nas introduções.

O encarte tem uma bela foto na capa, traz um texto de apresentação do jornalista João Máximo, a letra de todas as músicas e o nome dos músicos participantes. Está bacana, mas bem que podia dizer quem toca em cada faixa.

FAIXAS:

1. A Noite se Repete
Nelson Sargento

2. Jamais Pensei
Nelson Sargento/João de Aquino

3. O Remorso Vai Atrás
Nelson Sargento

4. Labirinto de Dor
Nelson Sargento
*/part: Emílio Santiago

5. Fé em Deus
Nelson Sargento

6. Fundo Azul
Nelson Sargento

7. Quando Eu te Vejo Passar
Nelson Sargento

8. Mentia
Nelson Sargento/Pedro Amorim

9. Energia da Vida
Nelson Sargento/Marília Trindade Barbosa

10. Tempo de Desejo
Nelson Sargento/Marília Barbosa

11. A Mesma Fantasia
Nelson Sargento

12. Conversando com o Brasil
Nelson Sargento

Encarte

Nelson Sargento nem desconfia do quanto fez minhas pernas tremerem quando — no intervalo de um feérico musical sobre Carmen Miranda — me convidou para escrever estas linhas. É que, em brevíssimos segundos, o convite me fez voltar no tempo uns quarenta anos. Isso mesmo: quarenta anos! Foi no fim de tarde de uma terça-feira de carnaval. Eu, Antônio Gordo, o saudoso compadre Télio, meu primo quase irmão Hélio (filho do “seu” Eurico que Martinho cantou num lindo samba) e acho que também o Luís, amigo de infância que sumiu no tempo, todos enfim meninos de Vila Isabel, entramos no Capelinha do Ponto para alguns antepenúltimos chopes.

E eis que Manuel dos Santos, nosso velho chapa Osso (sambista do bairro cuja posteridade se deve apenas ao meio esquecido “Amei como um louco”), nos falou, cheio de cerimônia, sobre os compositores da Mangueira que já se espremiam no corredor do botequim para discutir o desfile de véspera. Mais que de cerimônia, Osso carregava-se de reverência. Que prestássemos atenção, que tirássemos o chapéu, que ouvíssemos para aprender, porque ali, naquele grupo, só havia bamba. Um deles, claro, era Nelson Sargento.

Sempre foi grande a afinidade de Vila Isabel com a Mangueira. Mais do que à proximidade geográfica, ela se deve a uma instintiva afeição que vem dos tempos de Noel Rosa e que se prolongou pelos anos que antecederam a ascensão da Vila à escola de primeiro escalão (a Vila de quarenta anos atrás era pouco mais que um grande bloco). Nenhum daqueles meninos torcia pela Mangueira. Éramos Salgueiro, porque, naquela ocasião, a “vermelho e branco” lutava para deixar de ser o América das escolas para disputar, cheia de inovações, os títulos de campeã).

Mas o respeito pela “verde e rosa” era imenso. E aqueles bambas? Saber que um deles, justamente o Nelson, tinha feito a Mangueira cantar “Oh, primavera idolatrada, inspiradora de amores, oh primavera adorada, sublime estação das flores…”, era mesmo de tirar o chapéu. O respeito era tanto que nenhum de nós, eu, Antônio, Hélio, Télio ou Luís, teve coragem de puxar conversa com qualquer daqueles bambas.

Conversa com Nelson Sargento fui puxar décadas depois, ao entrevistá-lo em sua casa. Ouvi-o falar de samba, de poesia, de vida, com aquela inteligência que Sérgio Cabral já proclamou, em público, como das maiores do Brasil. Inteligência e sensibilidade. Nelson surpreendeu-me com a beleza singela de seus quadros, um dos quais comprei na hora.

Surpreendeu-me também como brasileiro vivido e bem informado. E surpreendeu-me como compositor que não se esgota nem se limita. De surpresa em surpresa, fez-me prometer (promessa que tardo a cumprir, só para que ele continue a cobrar), a gravação doméstica de um CD com canções de… Errou quem disse Cartola, até porque, do mestre, Nelson Sargento sabe tudo. As canções são de Hoagy Carmichael, o de “Stardust”, que ele se lembra de ter visto, com o cigarro no canto da boca, cantando e tocando piano enquanto Humphrey Bogart e Lauren Bacali se apaixonavam em “Uma aventura na Martinica”.

Surpreendeu-me, enfim, que aquele homem miúdo, inquieto, bom de papo e de idéias, tenha se tornado, com o passar dos anos, um bamba ainda mais bamba.

Se as pernas tremeram em clima de Carmen Miranda, imaginem depois de ouvir este seu novo CD. Podia resumir tudo numa frase meio preguiçosa, mas nem por isso falsa: dos compositores de samba em atividade em todo o Brasil, apenas três, quatro, no máximo cinco, são capazes de um repertório tão irretocável, tão carregado de pedras preciosas como este.

Não pedras brutas, mas já lapidadas, pois os sambas de Nelson Sargento são claramente elaborados, nota por nota, verso por verso, contornando com classe os clichês e os caminhos fáceis. Reparem, por exemplo, na dolência de ‘A Noite se Repete‘, à altura de um Cartola. Jamais pensei (com João de Aquino) tem o jeito dos melhores sambas de quadra, dos que falam, com altivez, de um amor fracassado.

Já se vê que nem sempre o sambista prefere a lágrima ao sorriso. ‘O Remorso Vai Atrás‘ entra na contramão: desta vez é o sambista que, por ter magoado a amada, clama por castigo. ‘Labirinto de Dor‘ é uma jóia, um samba-canção tipicamente anos 50, daqueles que os ‘bossanovistas’ se vangloriam de terem sepultado. A participação de Emílio Santiago é irresistivelmente perfeita.

Fé em Deus‘ tem poesia de quem aposta na vida, como o próprio Nelson. ‘Fundo Azul‘ fala de primavera, como tantos de seus sambas, ele que é amante das flores e do que elas simbolizam. Mas os versos soltos, dispostos sem ordem, são viagens, digamos, filosóficas de quem sabe das coisas. ‘Quando Eu te Vejo Passar‘, outro samba-canção, tem algo de visual, memórias de um amor convertidas em filme imaginário e fugaz.

Menti’ (com o talentoso bandolinista Pedro Amorim) é ritmado, alegre, quase carnavalesco, apesar da letra: “- Hoje eu vivo amargurado, não esqueço aquele adeus…” Conserva aquele jeito carioca, em que Noel era mestre, de cantar com bom humor a mentira e o azar. Seguem dois sambas (com Marília Trindade Barbosa), de uma parceria que, de certa forma, é mais uma surpresa: quando dois mangueirenses se juntam, é fogo! ‘A Mesma Fantasia‘ transcorre em atmosfera de marcha-rancho, embora tratada como samba.

É o folião Nelson Sargento me levando de volta àquele carnaval de quarenta anos atrás. Por fim, ‘Conversando com o Brasil‘, um fim de festa embalado por samba-panfleto—patriótico no melhor sentido — que bem poderia servir de modelo, na originalidade da melodia e na economia da letra, a todo samba-enredo que focalize este país de incontáveis carteiras batidas.

É isso. Tenho que confessar que ainda guardo certa cerimônia — ou reverência — em relação a Nelson Sargento, vestígios do menino de Vila Isabel que fui um dia (de Vila Isabel serei sempre, mas menino… deixa pra lá: estou mais para Nelson Sargento do que para o mais jovem pagodeiro da Móca). Mas a cerimônia não me impede de admirar a vitalidade desse brasileiro de 77 anos, que compõe, canta, faz shows, excursiona, atua como ator, pinta, agita, vive, tudo isso mais e melhor que um menino. A gente chega a acreditar mais no Brasil quando vê que a Nelson Sargento foi concedida a graça de colher suas flores em vida.

João Máximo

P.S. áudio playlist formato mp3/320Kbps

P.S. foto de Nelson no topo do post, por: Edinho Alves

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