Sonho de Um Sambista Nelson Sargento 1979, LP - Eldorado - Rob-Digital

Sonho de Um Sambista °° Nelson-Sargento 1979, LP - Eldorado - Rob-Digital

Sonho de Um Sambista °° Nelson-Sargento 1979, LP - Eldorado - Rob-DigitalSão Paulo, fevereiro, 79.

Nelson,

Ontem o Pelão telefonou: ”- Guardei pra você a contracapa do LP do Nelson Sargento, que a gente acabou de gravar”. E a velha raiva-amor voltou ao peito. A raiva santa contra o Pelão, que mais uma vez chegou primeiro, uma abençoada pressa que já deu à música popular brasileira o registro do trabalho-antologia de gente como os nossos Cartola, Carlos Cachaça, Nélson Cavaquinho e tantos mais, um trabalho de me encher o peito de inveja. […]

Quem não gostaria de ter feito?

E o ‘home’ não para por aí, não. Sem mais aquela, joga na cara do mundo a importância de ter gravado – no selo prestígio Eldorado – nada menos, nada mais que Nélson Sargento.

É quando o amor se funde à raiva. O amor de ouvir vendo o velho amigo. Reconhecendo na voz a figura magra, calva e sorridente que conheci debruçado num inacreditável violão pintado de verde, contribuindo com parcela básica para a ressurreição da música popular brasileira participando com seus sambas do “Rosa de Ouro” musical-ventre que gerou o interesse de toda uma geração pela nossa cultura musical popular, acabando com o “rock” da mesma maneira como não se deixará sufocar pela “discoteque”.

Quantas vezes “dividimos” o “Rosa”, você no palco (mais Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Clementina de Jesus e Aracy Cortes), eu na platéia! Os improvisos dos partido-alto descobertos então pela classe média, que chamava qualquer samba de empolgação de “partido-alto” – rimando brincadeiras entre os sambistas e nós, os mais chegados. Quantas vezes, madrugada fria de São Paulo requerendo a competente cachaça ou a sua favorita “caipirinha”, ouvi casos e coisas da Mangueira, cantadas nos seus sambas ou cantadas nas suas gargalhadas, que estremeciam as mesas do “Parreirinha”?

Quantas vezes, Nélson Sargento, nesse início de amizade que deságua em tantos bons momentos, principalmente no meu amor pela Mangueira, pelo qual – único mangueirense no “Rosa”, além da mãe Clementina – cabe à você parte da responsabilidade, o samba esteve presente? Acredito que em todas.

Não tenho lembrança de Nélson Sargento, sem o violão verde – cordas de aço sambas de fina ironia, seu competente humor, de deslumbrado amor – sem um samba na boca, seu ou da “gente grande” da Mangueira, já que sabe tudo que os velhos da “Manga” compuseram. Lembra aquela tarde, na casa de Carlos Cachaça, quando você cantou para o Cartola oito sambas dele, que ele mesmo já não lembrava? E da sua promessa, provocando o Velho Divino: “- Se me der parceria, canto mais oito”?

Entrar de graça em samba alheio é coisa que seu talento jamais permitirá, Nélson Sargento. Mesmo sem as fulgurações da fama, sem o faturamento do sucesso, guardada em sua humildade, a altivez do sambista respeitado e acatado na colina verde-e-rosa, reduto de gente como Cartola, Xangô, Padeirinho, Preto Rico, Nélson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Darcy, Pelado e outros tantos, resistirá sempre.

Fazendo sambas de qualidade de “CÂNTICO À NATUREZA” (ah, vivo fosse o Alfredo Português, padrasto de parceiro, marcado ritmo nos tamancos e quantas outras belezas como estes versos de antologia: “– Desabrocham as flores/nos campos nos jardins/e nos quintais/A Primavera é a estação/dos vegetais”) e tantos outros que se não chegaram ao triste destino das paradas de sucesso, alcançaram o respeito e a admiração de seus pares nessa corte maravilhosa que é o Reino Mangueira, do qual só faz parte quem nasce sambista de verdade.

A última vez que nos vimos, foi no seu barraco, lá no “Chalet” da Mangueira. Como você mesmo diz, “- se virar o morro de cabeça para baixo, minha casa é a segunda, à esquerda de quem sobe…” Lá no alto, entre um gole e outro, lembrando coisas (como aquela vez que você pintou meu apartamento de sala-e-quarto, num tempo recorde de… dois meses: para cada pincelada, eram necessários dez sambas no violão verde e três “bem geladas” nos copos), você dizia que um dia as coisas mudariam, uma flor iria se abrir. Você já não mora no Chalet, deixou de pintar paredes para se transformar num quase bem sucedido pintor de telas e a flor ameaça se abrir.

O canteiro é este LP inteiro, feito por quem sabe, para os que sabem ou pretendem saber. Esta é a tua flor, queira Deus que a primeira de todo um jardim. Uma flor importante não só para você, mas também para a música e a cultura popular, feitas por gente que como você tiram da sensibilidade, da inspiração e da arte das quais são íntimos o que não foi possível buscar nos livros.

Acabaram-se raiva e inveja. Maiores que elas, o prazer de estar ouvindo você, enquanto escrevo, a certeza de que a importância do seu trabalho começa a ser reconhecida. E já que daqui de São Paulo, não posso dar o abraço que queria, mando uma certeza: o violão verde que você me deu está aqui na parede, na minha frente, as cordas de aço mudas. Mudas e tristes por não terem sido elas as que acompanham a sua voz, no LP de estreia. Mas disso a culpa é minha, culpa inteiramente justificada pela certeza de que o presente foi sincero. Como sincero é o desejo do sucesso que eu acredito esteja – finalmente – reservado para você, seu talento e sua esplendida figura humana.

Um abraço verde-e-rosa do

Arley Pereira

Sonho de Um Sambista °° Nelson-Sargento 1979, LP - Eldorado - Rob-Digital
encarte CD

FAIXAS:

01. Triângulo Amoroso
Nelson Sargento

02. Falso Moralista
Nelson Sargento

03. Agoniza Mas Não Morre
Nelson Sargento

04. A Noite se Repete
Nelson Sargento

05. Muito Tempo Depois
Nelson Sargento

06. Minha Vez de Sorrir
Batista/Nelson Sargento
P.S. nos créditos do LP lançado pela Eldorado (1979) constam os autores: Nelson Sargento/Batista da Mangueira

07. Sonho de Um Sambista
Nelson Sargento

08. Infra Estrutura
Nelson Sargento

09. Primavera
Nelson Sargento/Jamelão
P.S. nos créditos do LP lançado pela Eldorado (1979) constam os autores: Nelson Sargento/Alfredo Português/José Bispo

10. Por Deus, Por Favor
Nelson Sargento

11. Falso Amor Sincero
Nelson Sargento

12. Lei do Cão
Nelson Sargento

P.S. Sonho de Um Sambista – Nelson-Sargento – 1979, LP – Eldorado (07.79.0328) – 1996, CD – Rob-Digital (RD 074) / áudio playlist formato mp3/320Kbps

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