Escolha uma Página

Paulinho da Viola, 1973 – Nervos de aço

8 abr, 2017 | Álbuns

O choro tem importante papel na obra de Paulinho da Viola, especialmente em “Nervos de aço”. Lançado após o término de um relacionamento, não deixaria ter correlação com lágrimas escorridas. Quanto ao gênero, que aprendeu e desenvolveu com mestres como Pixinguinha e Radamés Gnatalli, graças às reuniões na casa de seu pai, o violonista César Faria: o choro também consta, mais especificamente na última canção, “Choro negro“, o pranto derradeiro amplamente derramado ao longo das canções anteriores.

De tão triste, tão sentimentalmente existencialista que é, “Nervos de aço” é o conceito estreito de um homem que entende o sofrimento emocional como etapa importante para superá-lo. A intensidade é tão grande, que parece não ter fim – por isso, assim, sem palavras, deixa que “Choro negro” mostre o quão nebulosa, naquele momento, era a dor. A dor de perder o amor, a possibilidade de ser feliz. Não havia palavras.

Quando lançou o 6º álbum solo, Paulinho até poderia estar transtornado mas, reservado que é, não quis expor seu âmago. Por isso, então, que o título vem emprestado de uma composição de Lupicínio Rodrigues: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?/ E por ele quase morrer?”, canta.

A maioria das canções de tom lamurioso, em “Nervos de aço”, foram compostas por outros músicos. Registrada na estreia da Velha Guarda da Portela, “Portela passado de glória (1970)”, “Sentimentos” abre o disco mostrando a traumática experiência de um rapaz ‘resolvido a não amar mais ninguém’. Foi escrita por Miginha.

“Não quero mais amar á ninguém” vai mais a fundo, tentando dissociar o sentimento da condição humana. Fruto da parceria entre Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda, aqui a versão contou com a participação de Don Salvador tocando cravo. Em entrevista a Charles Gavin, Paulinho da Viola disse:

“Falando assim pode parecer uma banalidade, uma bobagem, uma coisa tão sem importância, mas [a canção] pra mim tem uma força que eu não sei explicar qual é. (…) É um verso que eu acho tão bonito, isso com a própria melodia, que começa assim: ‘semente de amor sei que sou desde nascença’. Esse outro diz: ‘às vezes dou gargalhada ao lembrar do passado’. Eu acho isso tão… Se você souber o que significa isso pra mim!”

A única canção de Paulinho em tom de tristeza é “Roendo as unhas“, onde diz: “Meu samba não se importa se eu não tenho amor/ Se dou meu coração assim sem disciplina”. Nela fica clarividente uma produção soberba: o trombone de Nelsinho pontuando e os entrecortes da flauta de Copinha, com arranjos de Lindolpho Gaya (o Maestro Gaya), marcaram uma soberania rítmica que nem o samba nem a mais sofisticada MPB adquirira naquele momento. Outro que institui essa modernidade no disco é Cristóvão Bastos. Observe o piano da faixa-título: sua transição de notas é tremeluzente, e ao mesmo tempo sutil, fugindo do controle como se fosse um simulacro das emoções humanas.

Denominar “Nervos de aço” como um trabalho conceitual é equivocado. Explora a destreza, sim, mas não de forma atmosfericamente lúgubre. Mais versátil do que mostrou no anterior “Dança da solidão (1972)“, Paulinho da Viola transita por ritmos populares com a serenidade de quem encontrou nas ruas (e na desilusão) a maturidade, artística e sentimental. O andamento de “Sonho de um carnaval” flerta com a bossa nova, tendo como ponto de partida a toada. “Não leve a mal” é samba de terreiro, tomado pela cuíca de Marçal e outros instrumentos percussivos, como conga e cravo, celebrando a Portela.

“Comprimido” é um samba em que a síncope favorece a interessante crônica de um casal que brigava bastante. É Paulinho que comanda o clímax com sua voz. A cada pausa, aumenta a tensão – até o momento que ele revela se tratar de um suicídio, tema raramente abordado na música brasileira. Por fim, Paulinho faz alusão ao ‘samba do Chico, falando das coisas do dia a dia‘: sim, trata-se de “Cotidiano“.

“Nervos de aço” é um título deveras adequado para um álbum, mas Paulinho revelou que não foi escolha dele – assim como – “Dança da solidão”, foi sugerido pelos produtores, que baseavam os títulos a partir dos singles que apostavam como ‘vitrines’ do trabalho. Sendo assim, para este carioca essa dinâmica até fazia sentido. Sem detalhar muito o que verdadeiramente sentia, Paulinho da Viola fez das composições alheias o retrato expressionista da alma doída de um rapaz de bem.

Tiago Ferreira

Quero dedicar este disco à um amigo que não vejo há muito tempo; um amigo que sabia dos segredos de nossa alma e sorriria se pudesse nos ouvir falar assim de saudade. Ou talvez dissesse bem ao seu jeito, como um velho tio sábio e malicioso.

+++ … balas doces estragam os dentes de bocas inocentes

Ao pintor Walter Wendhausen.

Agradeço aos amigos Cristovão, Copinha, Nelsinho e Gaya pela complementação dos arranjos do disco através das inúmeras idéias discutidas e acrescentadas durante as gravações e também pela paciência e o cuidado com o pipi nas calças do menino.

Esse trabalho é a soma de nosso amor descontraído como se tivéssemos tocado numa reunião informal em nossa casa.

Um agradecimento especial a meus irmãos Elton Medeiros e Dininho, o Eliseu e ao resto da rapaziada do ritmo e a Toninho, Dacy e Nivaldo, pela dedicação.

textos acima: encarte do LP

SENTIMENTOS (2’28)
(Miginha)
COMPRIMIDO (3’15)
(Paulinho da Viola)
NÃO A LEVE A MAL (2’35)
(Paulinho da Viola)
NERVOS DE AÇO (2’28)
(Lupicínio Rodrigues)
ROENDO AS UNHAS (5’00)
(Paulinho da Viola)

NÃO QUERO MAIS AMAR Á NINGUÉM (2’47)
(Zé da Zilda – Cartola – Carlos Cachaça)
NEGA LUZIA (2’32)
(Wilson Batista – Jorge de Castro)
CIDADE SUBMERSA (3’34)
(Paulinho da Viola)
SONHO DE UM CARNAVAL (2’38)
(Chico Buarque de Hollanda)
CHORO NEGRO (3’24)
(Paulinho da Viola – Fernando Costa)

Produtor fonográfico: Ind. Elét. Mus. Fábrica Odeon S.A.
Equipe de Produção artístico-fonográfica realizadora deste disco:

DIRETOR DE PRODUÇÃO:
MILTON MIRANDA
DIRETOR MUSICAL:
MAESTRO GAYA
ORQUESTRADORES E REGENTES:
GAYA, NELSINHO, CRISTOVÃO BASTOS PAULINHO DA VIOLA, COPINHA
DIRETOR TÉCNICO:
Z. J. MERKY
TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO:
TONINHO E DACY
TÉCNICO DE LABORATÓRIO:
RENY R. LIPPI
TÉCNICO DE REMIXAGEM:
NIVALDO DUARTE
CAPA:
ELIFAS ANDREATO

 

flauta e clarinete:
Copinha;
piano, cravo e piano elétrico:
Cristovão Bastos;
trombone:
Nelsinho;
violão e cavaquinho:
Paulinho da Viola;
baixo elétrico:
Dininho;
bateria:
Juquinha, Eliseu (não quero mais amar ninguém);
ritmo:
Elton Medeiros, Dininho, Elizeu, Juquinha, Dazinho.