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A IMPORTÂNCIA DE SER NOEL ROSA

O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois. Naquela época, em que os “malandros” do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, cantavam em ritmo batucado as doces vantagens do ócio e a eterna dor-de-cotovelo, o moço de Vila Isabel que chegou a estudar medicina antecipou-se ao seu tempo e, em melodias cheias de rebuscamento (algumas em parceria com Vadico), exaltou na temática da música popular brasileira a angústia da metafísica amorosa O último desejo, a exploração do aspecto social O orvalho vem caindo e a mais viva caracterização de tipos populares Conversa de botequim.

Esse pioneirismo, se custou a Noel Rosa uma certa incompreensão no seu tempo (seus maiores sucessos eram sempre a músicas de carnaval, como Com que roupa?, constitui também o segredo da sua presença atual. A evolução da música popular brasileira, caminhando para uma sofisticação e uma preocupação que indicavam o acesso da nova classe média ao primeiro plano da vida brasileira, permitiu a redescoberta dos sambas-canções de Noel, no fim da década de 1940.

Daí em diante, e principalmente depois que a bossa nova, em sua segunda fase, iniciou o trabalho de reavaliação da música tradicional, Noel não apenas voltou á atualidade, mas mereceu a glória de um discípulo de vinte anos, na pessoa de Chico Buarque de Hollanda. As oito músicas que compõem esse fascículo comprovam essa verdade tanto com o exemplo das suas letras, quanto com a variedade das próprias gravações. Ao lado de contemporâneos do compositor, como Aracy de Almeida, não faltam cantores da moda, emprestando com a atualidade da sua fama mais uma prova da vitalidade de uma obra que não pareceu. Noel Rosa ainda é Noel Rosa.

JOSÉ RAMOS TINHORÃO

ONDE ESTÁ A HONESTIDADE (Noel Rosa / Kid-Pepe), com Beth Carvalho. Do LP Tapecar n.° X33 — PANDEIRO E VIOLA —, de 1975. Arranjo e regência de Ed Lincoln. Gravação original do próprio Noel, acompanhado pela Turma da Vila, no 78rpm Odeon n.° 10989, de março de 1933.
Direitos autorais de Irmãos Vitale Indústria e Comércio Ltda.
Onde está a honestidade é uma das criações mais representativas do período em que Noel firma seu nome (aos 23 anos) entre os mais conhecidos da época. Embora fazendo sucesso quando de seu lançamento, a composição ficou relativamente esquecida até que Beth Carvalho fizesse esse registro, dentro de um novo estilo de samba que se impôs na década de 70, conhecido como “sambão”, no qual a tônica é dada aos instrumentos de percussão.

QUANDO O SAMBA ACABOU (Noel Rosa); com Mário Reis. Do LP Phonogram n.° 6470562, de 1976. Gravação original do próprio Mário Reis no 78 rpm Odeon n.° 11003, de 1933. Direitos autorais de EMI-Odeon Fonográfica, Industrial e Eletrônica S.A. A letra — que revela o poeta inspiradíssimo — conta com detalhes a história dramática de dois malandros apaixonados pela mesma cabrocha. Como grande parte das músicas de Noel, Quando o samba acabou não fez sucesso na época, mas mereceria várias gravações posteriores.

Capa NOVA HISTÓRIA DA MPB: NOEL ROSA - 1977 (Abril Cultural ‎- HMPB-08, LP)CONVERSA DE BOTEQUIM (Noel Rosa / Vadico), com Moreira da Silva. Do LP Imperial n.° 30196, de 1970. Gravação original do próprio Noel no 78 rpm Odeon n.° 11257, de julho de 1935.
Direitos autorais de EMI-Odeon Fonográfica, Industrial e Eletrônica S.A.
Osvaldo Gogliano, o Vadico, talvez não pudesse ser considerado um sambista, no Rio dos anos 30. Afinal, nascera no Brás, bairro italiano de São Paulo, e tocava choros ao piano — numa época em que se discutia se uma pessoa de fora da Vila fazia samba. Contudo, Vadico criou, sobre uma letra pronta, um dos sambas mais carregados de dengues que se conhece.
A opção aqui foi pelo registro de Moreira da Silva, que construiu seu nome na música brasileira associando-se exatamente à “prontidão” do freguês noelino.

ÚLTIMO DESEJO (Noel Rosa), com Aracy de Almeida. Gravação original, do 78 rpm Victor n.° 34296, de março de 1938.
Direitos autorais de Mangione & Filhos.
Uma das mais ricas composições de Noel, feita para aquela que muitos estudiosos consideram seu grande amor: Ceci (inspiradora, entre outras músicas, de Pra que mentir?, Quantos beijos e Quem ri melhor). “Formosa e acessível”, como descreveu Almirante, essa dançarina do Cabaré Apolo foi apresentada a Noel durante uma festa de São João. Daí por diante, seguiram-se declarações e ironias. Último desejo foi feita como uma espécie de “despedida” de Ceci, para quem o compositor, poucos dias antes da morte, entregou os versos, que Aracy se encarregaria de registrar.

TRÊS APITOS (Noel Rosa), com Maria Bethânia. Do compacto RCA n.° 1142, de dezembro de 1965. Acompanhamento ao violão de Carlos Castilho. A gravação original dessa composição foi feita por Aracy de Almeida em março de 1951, para a Continental, num álbum sobre o compositor (n.°s 16391/3).
Direitos autorais de Mangione & Filhos.
Embora reconhecido como um dos sambas mais ricos em achados poéticos, principalmente por rimas como “pano”/”piano”, “apito”/”grito”/”aflito”. Três apitos permaneceu inédito em gravações durante muito tempo, porque seu autor o considerava um mau samba, cheio de incorreções poéticas.
A gravação de Bethânia, sem breques e dengues, mas de maior interiorização que as anteriores, mostra mais uma das interpretações que a obra de Noel propicia.

PALPITE INFELIZ (Noel Rosa), com Aracy de Almeida. Do álbum Continental Noel Rosa (n.°5 16317/ 8/9), de setembro de 1950. Arranjos de Radamés Gnatalli. Gravação original da própria Aracy, pela Victor, em janeiro de 1936.
Direitos autorais de Mangione & Filhos.
Palpite infeliz foi motivada pela polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista. É a resposta ao autor de Conversa fiada (que reagiu com o deselegante Frankestein da Vila, alusão ao rosto deformado de Noel). A gravação de Palpite infeliz foi entregue a uma cantora muito jovem (vinte anos), cuja voz entusiasmara o compositor num programa de rádio. A mesma cantora que quase quinze anos mais tarde seria responsável pelo renascimento de Noel, através de gravações “vestidas” por Radamés para a década de 50.

VOCÊ VAI SE QUISER (Noel Rosa), com Noel Rosa e Marília Batista. Gravação original Odeon, do 78 rpm 11422, de janeiro de 1937. Acompanhamento a cargo do regional de Benedito Lacerda.
Direitos autorais de EMI-Odeon Fonográfica, Industrial e Eletrônica S.A.
Marília Batista foi, ao lado de Aracy de Almeida, a intérprete preferida de Noel. Com ela o compositor fez uma série de gravações tanto pela Odeon como pela Victor, principalmente no período final de sua vida. A gravação aqui apresentada é uma das últimas do Poeta da Vila, também considerado um dos grandes intérpretes da música popular brasileira.
Você vai se quiser foi o único samba de Noel feito para sua esposa, Lindaura. Preocupada com as dificuldades pelas quais passavam, ela se propôs a ir trabalhar fora. Do nada feminista Noel, recebeu essa irônica resposta: “Ela esquece que tem braços,/ Nem cozinhar ela quer”

FEITIO DE ORAÇÃO (Noel Rosa / Vadico), com Francisco Alves. Gravação original Odeon, do 78 rpm n.° 11042, de agosto de 1933. Acompanhamento a cargo de Castro Barbosa e sua Orquestra.
Direitos autorais de Irmãos Vitale Indústria e Comércio Ltda.
Feitio de oração foi a primeira consequência do encontro de Noel Rosa com Vadico. A música tinha sido feita bem antes pelo compositor paulista e Noel Rosa incumbiu-se de lhe dar a letra que homenageava Julinha, dançarina de um cabaré da Lapa e que tinha um barraco na favela da Penha. Na música, o Poeta da Vila misturou com muita felicidade a referência a um desencontro amoroso com frases que acabariam por se tornar definições de samba e, por extensão, da própria música popular brasileira.

FAIXAS

(Abril Cultural – HMPB-08, LP)

A1 – ONDE ESTÁ A HONESTIDADE
Noel Rosa / Kid Pepe
voz.: Beth Carvalho

A2. QUANDO O SAMBA ACABOU
Noel Rosa
voz.: Mário Reis

A3. TRÊS APITOS
Noel Rosa
voz.: Maria Bethânia

A4. ÚLTIMO DESEJO
Noel Rosa
voz.: Aracy de Almeida

B1. PALPITE INFELIZ
Noel Rosa
voz.: Aracy de Almeida

B2. VOCÊ VAI SE QUISER
Noel Rosa
voz.: Noel Rosa e Marília Batista

B3. FEITIO DE ORAÇÃO
Noel Rosa / Vadico
voz.: Francisco Alves

B4. CONVERSA DE BOTEQUIM
Noel Rosa / Vadico
voz.: Moreira da Silva