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Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius

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Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius, 1966
Forma FM-16, LP
por.: Marcelo Oliveira / 20 abr, 2017
Categoria(s).: Baden Powell

Quando, há quatro anos atrás, Baden Powell e eu começamos a compor pra valer, ficamos praticamente sem sair durante três meses. “Samba em Prelúdio”, “Só Por Amor”, “Bom Dia, Amigo”, “Labareda” e o “Astronauta” são dessa safra. Uma das coisas que mais o fascinava era ouvir um disco que meu amigo Carlos Coqueijo me trouxera da Bahia, uma gravação ao vivo de sambas-de roda e cantos de candomblé, com várias exibições de berimbau em suas diversas modalidades rítmicas.

Nesse meio tempo Baden deu um pulo a Salvador, onde teve oportunidade de ver e ouvir candomblé e conviver com gente “por dentro” do assunto. A Bahia fez-lhe uma impressão enorme. Foi quando saiu nosso samba “Berimbau“, que só por ser demais conhecido não consta desta série, embora a ela pertença e o “Samba da Benção“, de balanço nitidamente baiano.

Mas mesmo antes de “Berimbau”, já Baden me catalizara para compor o “Canto do Caboclo Pedra Preta” aqui representado. O samba foi feito na hora, como se diz – a música e a letra da 2ª parte buscando dar sentido ao canto original do caboclo. “Olô pandeiro Olô viola“, assim mesmo com a vogal no grave, pois quando o caboclo Pedra Preta nos dizia que pandeiro não quer que eu sambe aqui, viola não quer que eu vá embora, parecia-nos querer ele dar as coordenadas desse eterno conflito do amor e do sexo, cujo bandarilheiro é o ciúme, em que o elemento “macho” (o pandeiro) repudia vivamente a entrada em cena do caboclo Pedra Preta no outro, mas já aqui com a conotação também da divindade de Pai-de-Santo capaz de arrastar o elemento “fêmea” (a viola) para o mundo subterrâneo da magia negra e do sexo místico. Mas Pedra Preta os concita a não fugirem ao próprio destino, pandeiro tem que pandeirar – viola tem que violar. E quando na hora mágica do “caboclo” o galo canta fora de hora, o pandeiro parte, perdida que está para ele a partida.

A viola se integrará na missa negra e, doravante, também ela será sacerdotisa do culto. Esta é uma das interpretações que, uma vez terminado, o samba nos provocou. Mas à medida que ele se impunha pelo mistério do seu contexto, outras foram aparecendo. Pedra Preta seria, ao mesmo tempo, o elemento perturbador do eterno casal em conflito, cujo conflito é a essência mesma da vida em sua dinâmica. Só sei que me deixei completamente envolver pela sábia magia do candomblé baiano e durante meses vivemos em contato com o seu grave e obscuro mundo. Data de então também o “Canto de Iemanjá” em que me parece, Baden atingiu uma beleza poucas vezes alcançada. O canto inicial com que a Rainha do Mar anuncia sua presença e através do qual cativa e atrai os homens para a borda sem sexo (pois Iemanjá, neta de Oxum, sendo sereia tem corpo de peixe dos quadris para baixo) possui um tal mistério que até hoje não posso ouvi-lo sem me perturbar fundamente. Dulce Nunes interpretou-o à perfeição, com uma voz abstrata, como que vinda de fora, do além, do mágico mundo marítimo de Iemanjá.

Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância, para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo , “carioquizar”, dentro do espírito samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal. Tirante algumas experiências camarísticas, como fez por exemplo meu querido e saudoso amigo Jayme Ovalle com os “Três Pontos de Santo”, nunca os temas negros de candomblé tinham sido tratados com tanta beleza, profundidade e riqueza rítmica como por exemplo “esse duende da floresta afro-brasileira de sons”, como eu disse de Baden numa frase feliz. É esta, sem dúvida, a nova música brasileira e a última resposta que dá o Brasil – esmagadora – à mediocridade musical em que se atola o mundo. E não o digo na vaidade de ser letrista dos mesmos, digo-o em consideração à sua extraordinária qualidade artística, à misteriosa trama que os envolve, um tal encantamento em alguns, que não há como sucumbir à sua sedução, partir em direção ao seu patético apelo.

Notem também a estrutura rítmica puramente candomblé do “Canto de Xangô”, em que Xangô Agodô, o orixá velho, ao mesmo tempo que canta parece advertir Xangô jovem sobre a necessidade de amar sem medo, pois o jovem, após o primeiro fracasso amoroso, começa a adquirir uma certa reserva com relação ao amor. Em “Bocochê”, Segredo, volta o tema de Iemanjá já aqui tratado ritmicamente à maneira do candomblé. No “Canto de Ossanha” Baden, a meu ver, atingiu o máximo de profundidade em sua carreira de compositor. É um samba “advertente” e muito revolucionário em seu contexto. Um samba positivo que não se recusa a enfrentar os problemas do amor e da vida. Em “Tempo do Amor”, que é de todos o que menos se relaciona com o ritmo e a temática do candomblé, a estrutura do samba é, sem embargo, o que justifica sua inclusão neste LP.

Quando Roberto Quartin nos procurou interessado em gravar esta série, combinamos com o jovem e talentoso produtor que o disco seria feito com um máximo de liberdade criadora e um mínimo de interesse comercial. Não nos interessava fazer um disco “bem feito” do ponto de vista artesanal, mas sim espontâneo, buscando a transmissão simples do que queriam nossos sambas dizer. Gravaríamos, inclusive, faixas mais longas do que gostam os homens de rádio e consequentemente a maior parte dos nossos intérpretes. E Embora não sejamos cantores, no sentido profissional da palavra, preferimos gravá-los nós mesmos a entregá-los a cantores e cantoras que realmente distorcem a melodia e o ritmo das canções em benefício de seu modo comercial de cantar ou de suas deformações profissionais adquiridas no sucesso efêmero junto a um público menos exigente. Assim estamos certos de que, pelo menos, gravamos uma matriz simples e correta, sem modismos nem sofisticações. E não foi outra a razão pela qual escolhemos uma equipe onde apesar de haver um conjunto vocal profissional da qualidade do “Quarteto em Cy” e uma cantora que se vai firmando cada vez mais como Dulce Nunes – (Ouçam o “Lamento de Exu”), a obediência a esse princípio foi absoluta. Nem as baianinhas nem Dulce são “botadoras de banca” e cooperaram com toda a dedicação na feitura deste LP dentro do espírito que desejamos. Baden, Roberto Quartin e eu, para “desprofissionalizar” ao máximo a gravação, criamos mesmo o que passou a ser chamado o “Coro da amizade” amigas e amigos nossos escolhidos a dedo que vinham à gravação e sob a orientação do Maestro Guerra Peixe – criador de todos estes notáveis arranjos que aqui estão – mandavam a sua brasa no coro. Para se ter uma ideia do critério adotado, havia uma jovem tabelioa, um broto bonito e inteligente que é, além do mais, filha do meu amigo Fernando Sabino, Eliana Sabino; a dançarina e estrela de teatro e cinema Betty Faria, cuja voz em solo sensual se ouve dando-me as respostas na primeira faixa, o “Canto de Ossanha”; minha amiga Tereza Drummond estará engolindo o violão; minha mulher Nelita, que embora tenha um fio de voz, compareceu com sua graça e entusiasmo; o Dr. Cesar Augusto Parga Rodrigues, psiquiatra, que toca um bom pianinho em casa, quando arranja uma batina toca órgão nas igrejas, figura de grande simpatia mas a quem depois de um convívio maior no calor humano, alcoólico e atmosférico dos idas da gravação (ela realizou-se na canícula de janeiro) eu não sei se entregaria a minha “cuca” para analisar, mormente depois de vê-lo regendo o coro metido no avental médico com que chegara do plantão e, finalmente Otto Gonçalves Filho, o popular Gaúcho, figura “velosiana” como o chamei, que também faz suas coisinhas no violão e tem na algibeira uns sambas que irão correr mundo.

Por falar em figura velosiana cumpre-me explicar uma coisa: O samba “Tempo de Amor” está sendo popularmente chamado de “Samba do Veloso”. A razão é simples, é que Baden o compôs no já famoso Bar Montenegro, também chamado o Veloso, ali na esquina da Prudente de Moraes e Montenegro, em Ipanema. O mesmo, aliás, onde há uns cinco anos atrás, Antonio Carlos Jobim e eu vimos passar toda linda e cheia de graça a Garota de Ipanema.

Rio, fevereiro de 1966
Vinícius de Moraes
(texto contracapa do LP)

1 – Canto de Ossanha (Baden – Vinicius)

2 – Canto de Xangô (Baden – Vinicius)

3 – Bocochê (Baden – Vinicius)

4 – Canto de Iemanjá (Baden – Vinicius)

5 – Tempo de Amor (Baden – Vinicius)

6 – Canto do Caboclo Pedra Preta (Baden – Vinicius)

7 – Tristeza e Solidão (Baden – Vinicius)

8 – Lamento de Exu (Baden – Vinicius)

Ficha Técnica:

Produção e direção artística – Roberto Quartin e Wadi Guebara
Técnico de Gravação – Ademar Rocha
Contracapa – Vinícius de Moraes
Fotos: Pedro de Moraes
Capa – Goebel Weyne

Ficha Artística:

Vocais: Vinícius de Moraes, Quarteto em Cy e Coro Misto
Sax Tenor – Pedro Luiz de Assis
Sax Barítono = Aurino Ferreira
Flauta – Nicolino Cópia
Violão – Baden Powell
Contrabaixo – Jorge Marinho
Bateria – Reisinho
Atabaque – Alfredo Bessa
Atabaque Pequeno – Nelson Luiz
Bongô – alexandre Silva Martins
Pandeiro – Gilson de Freitas
Agogô – Mineirinho
Afoxé – Adyr José Raimundo

Gravado nos dias 3, 4, 5 e 6 de janeiro de 1966, sob a supervisão direta de Roberto Quartin

Arranjos e Regência de Guerra Peixe

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