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OS CINCO CRIOULOS – 1969

30 maio, 2017 | 0 Comentários

OS CINCO CRIOULOS

Os Cinco Crioulos vocês sabem, são produto da depuração do cadinho de samba que misturou o conjunto original A Voz do Morro com seu sucessor, que se chamou Rosa de Ouro, nascido no espetáculo de mesmo nome, do poeta Hermínio Bello de Carvalho, um dos principais responsáveis por se ouvir hoje – a êste LP é exemplo disso – música popular brasileira. Os mesmos Cinco Crioulos que vez ou outra – pra alegria da gente – viram a chave na fechadura lá de casa, São Paulo espalhando pelos cantos tamborim, pandeiro, violão e afoché. Que o Q. G. paulista deles é na Avenida Ipiranga, onde o Jair deixa um pouco o cavaquinho para cuidar de um refogado com nuanças braco-azuis da sua Portela, enquanto o Anescar (que lá é Nescarzinho mesmo) se preocupa mais em olhar, quieto, pela janela ou contar coisas do Morro do Salgueiro. Nelson Sargento que estão sujando o branco que ele derramou (entremeando o preparo de suas tintas com muito samba do seu ex-violão verde, que hoje descansa na mesma parede que nem os instrumentos originais do já falado Rosa de Ouro) em todos os cômodos. O Elton remexe na discoteca procurando coisas para apresentar no programa de rádio do conjunto enquanto o Mauro vai servindo “cana” pra todo mundo e reclama do Jair a demora da “gordura”.

Depois do almoço ou do jantar, ou tenha lá o nome que tiver, que essas coisas nunca tem hora pra acontecer, o negócio esquenta. Ou é o Elton que começa a bulir no cavaquinho e o Jair vem logo “para mostrar o acorde certo”, ou é o Anescar que bate um tamborim em surdina enquanto o Mauro roda o afoché nas mãos. O violão provoca nas “baixarias” do Nelson Sargento e a “jiripoca começa a piar” quando o Elton chega de pandeiro ou escolhe a caixa-de-fósforos (que ninguém bate como ele, em lugar nenhum) se a coisa é de madrugada.

É um lembra “aquele samba”, outro emenda na deixa, alguém puxa o samba-enrêdo de sua Escola, até que o inevitável acontece, quando um refrão de partido-alto convida pro improvisso, que não pára mais. Tudo muito bom, muito lindo lavando a alma e o coração da gente, tão precisados disso, compensando mesmo a “destruição” da única coleção de pinga, que não chega nunca a décima garrafa diferente, sendo “consumida” a cada roda-de-samba na Avenida Ipiranga. Mas, não tem nada não. A coleção já começou outra vez e vocês estão convidados agora a participar da roda, com os Cinco Crioulos fazendo aí na sua cada tudo que fazem na nossa. E olhem que não é muita gente que pode sair por aí, se vangloriando de tais ilustres visitas.

Escolham aí um gole da “Azuladinha” ou da “Chora na Rampa”, dêem uma bicada na “Recordações de 1940” ou se preferirem tem da “Mocotolina” também, sem falar naquelas que os rótulos não podem ser lidos em público. Já “municiados” em “paiol” brasileiro saibam que vocês vão ouvir música brasileira. Seis inéditas e cinco já conhecidas. Que desta vez – êste é o terceiro volume dos Cinco Crioulos – eles fugiram um pouco daquela formula a que se obrigaram nas gravações, de lugar uma música inédita de cada um deles e regravar sete sucessos do passado. Acontece que a raíz dêste LP é um compacto que não chegou a ser gravado e que teria o partido-alto de Candeia e Casquina “Vida Apertada” e o “Machucando o Jiló”, de Geraldo Babão. Assim, ao invés de cinco, ganhamos sete inéditos.

“Gargalhei” (2’15”) de Henrique Almeida, Arnô Canegal e Augusto Garcez, surgiu originalmente na voz de Carlos Galhardo em 1939 e abre agora este elepê com Nescarzinho do Salgueiro fazendo o solo, no samba do trio que, separadamente, marcou muito sucesso na música popular. – Em “Vida Apertada” (2’21”), quem faz o solo é o portelense Jair do Cavaquinho, não fossem os autores do partido-alto (Candeia e Casquinha) tão de Oswaldo Cruz quanto ele. – Já Mauro Duarte é quem “dá o recado” no “Em Cima da Hora” (2’28”) que João Petra de Barros gravou originalmente em novembro de 1939. Há quem diga que o parceiro de Russo do Pandeiro neste samba foi Peter Pan, mas na realidade quem fez “Em Cima da Hora” com o Sr. Antônio Cardoso Martins, foi mesmo o parceiro predileto de Gadé, esse extraordinário Walfrido Silva de tantas glórias. – “Só Vou Dizer” (2’15”), de Nelson Sargento, é a primeira faixa de um dos Crioulos. O samba (que segundo um “crítico”, num Festival não tem tessitura), é solado pelo próprio compositor da música por demais exaltada Estação Primeira de Mangueira e chama atenção pela introdução “característica” improvissada por Nelsinho, que uniu seu trombone à flauta de Altamiro Carrilho e ao sax-alto de Abel Ferreira, que para surprêsa – evidentemente agradável – dos Cinco Crioulos, foram incluídos na gravação, dirigida por êsse mesmo mostruoso maestro Nelsinho. – “Aquela Nêga” (2’50”) fecha a face “A”, é uma música de um compositor de Ala da Escola de Samba (Élton Medeiros, da Unidos de Lucas) á letra de um intelectual, assistente de Marcuse em Berlim (Nuno Veloso) em mais um produto dessa coisa bonita de integração musical que só a música popular brasileira consegue. – “À Sombra do Salgueiro” (3’38”) é a faixa mais longa e nela Nescarzinho do Salgueiro sola o samba que fez com seu mais habitual parceiro, Ivan Salvador.

Olhem aí, irmãos. Reforcem a dose com uma “Chororô” uma “Areia Branca”, ou – em homenagem ao som – uma “Batucada” destilada em Barreiros, no interior de Pernambuco, e virem o disco, que ainda tem muita lenha pra queimar. Não esqueçam de dar atenção a “cozinha”, onde se misturam cuíca, surdo-tamborim, reco-reco, agogô, atabaque e pandeiro, passando pelas mãos de Juquinha, Luna, Marçal, Elias, Jair do Pandeiro e Eliseu. Que os “Cinco Crioulos” estão – folgados – só colocando mesmo a voz na bolacha. E esses violões que a gente ouve só podem ser do Meira e do Arlindo Ferreira, enquanto o cavaquinho (que quem está por dentro já sentiu a afinação em Ré/Sol/Sí/Ré é do Índio, de dedos firmes e palhetas seguras. Mas virem o disco, que tem mais.

“Lamentação” (2’33”) abre a face “B”. Mauro Duarte é seu compositor e solista e, na ordem cronológica da gravação do LP, foi a primeira que o conjunto gravou. Fiel ao seu estilo , reparem na beleza dos versos do compositor da Foliões de Botafogo e no solo de Abel Ferreira, lembrando aquéles que fazia, seu sax-alto acompanhando os Quatro Ases e Um Coringa. – “Fingiu Que Não me Viu” (2’35”) é de uma das mais famosas duplas de compositores carnavalescos: Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, criadores de um sem número de sucessos de fevereiro (lembram-se de “Passarinho do Relógio”; “Passo do Canguru”; “Tem Galinha no Bonde”; “A Mulher do Leiteiro” etc?) e quem faz o solo é Nelson Sargento. – “Machucando o Jiló” (2’50”) é uma batucada de Geraldo “Babão”, que, apesar de ser compositor do Salgueiro lançou-a na quadra de ensaios do Bloco Carnavalesco Foliões de Botafogo. – “Solidão” (2’45”) é outro samba original, que seu autor, Jair do Cavaquinho mostra, naquela mesma linha tímida que marca o trabalho do compositor de “Barracão de Zinco”. – “Meu Amor foi-se Embora” (2’15”) é de Chiquinho da Mangueira (Francisco Modesto), dono de uma “tendinha” lá no “Chalet”, no tôpo do morro mais famoso, de parceria com Germano Augusto, o português que tanto samba fêz, principalmente com Kid Pepe. O solo é de Élton Medeiros e esta faixa encerra o LP.

No mais, vamos tratar de recomeçar (outra vez) a coleção. E lamentar que não tenha saído dela o “combustível” usado pela turma quando da gravação, que começou as 14 horas e foi direto até as 2 da madrugada. Que mais tempo não foi necessário.

Arley Pereira
contracapa

GARGALHEI
VIDA APERTADA
EM CIMA DA HORA
SÓ VOU DIZER
AQUELA NÊGA
A SOMBRA DO SALGUEIRO

LAMENTAÇÃO
FINGIU QUE NÃO ME VIU
MACHUCANDO O JILÓ
SOLIDÃO
MEU AMOR FOI-SE EMBORA

PRODUTOR FONOGRÁFICO I.E.M. Fábrica Odeon S.A.
Equipe de produção artístico-fonográfica realizadora deste disco:

DIRETOR DE PRODUÇÃO
MILTOM MIRANDA
DIRETOR MUSICAL
LYRIO PANICALI
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO
MAESTRO NELSINHO
ORQUESTRADOR E REGENTE
MAESTRO NELSINHO
DIRETOR TÉCNICO
Z. J. MERKY
TÉCNICO DE GRAVAÇÃO
NIVALDO E JORGE
TÉCNICO DE LABORATÓRIO
RENY R. LIPPI
LAY-OUT
MOACIR ROCHA
FOTO
MAFRA