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PAULINHO DA VIOLA – ZUMBIDO – 1979

2 abr, 2017 | 0 Comentários

PAULINHO DA VIOLA - ZUMBIDO

O LP “Zumbido” não poderia ser melhor, para encerrar esta fase da carreira de Paulinho da Viola. Gravado em 1979 – a faixa-título em 80 – foi a célula-mater de um dos melhores, talvez o melhor, de seus shows. Dirigido pelo multimídia Elifas Andreato (autor de quase todas as capas dos discos do Paulinho), marcou época em quase todas as capitais brasileiras onde foi apresentado. Indo novamente a Botafogo, grava pela primeira vez Álvaro Cardoso “Passei por ela” e repete Mauro Duarte em “Foi demais“, Walter “Alfaiate” e Zorba “Devagar” em “Coração oprimido“. A regravação de “Chico Brito” de Wilson Batista é uma sutil alfinetada no estabelecido à época. “Recomeçar” é uma obra-prima de Paulinho e Elton. Já “Zumbido” uma mais que digna despedida do artista à gravadora que registrou o seu ainda mais fértil período como autor.
Arley Pereira

“ZUMBIDO:” UM PERSONAGEM INCONFORMADO COM A REALIDADE

“Zumbido foi a última música que fiz, que encerra e dá título ao disco. Zumbido é um negro que não se conforma com a realidade que o cerca. Ele generaliza, às vezes, quando diz que ‘negro tem é que brigar’. É um personagem que se revela, se revolta, questiona, não aceita a situação. Botei nele o nome de Zumbido, porque zumbido é uma coisa que incomoda e ele é assim, canta coisa que as pessoas não cantam, fingem desconhecer. Então ele vai lá, cutuca e, como sempre acontece com as pessoas que dizem as coisas, que as outras não dizem, porque têm medo, são logo tachadas de loucas, como diz no verso: ‘E logo correu que ele havia enlouquecido / Falando de coisas que o mundo sabia / Mas ninguém queria meter a colher’. Zumbido é isso, um personagem fictício saído da realidade.”

COMO ACONTECEU O DISCO

Esse disco foi criado em apenas um mês, do dia 7 de agosto ao dia 7 de setembro/79, nascendo a partir da necessidade que Paulinho tinha de lançar um novo trabalho.
“Quando comecei a gravar, — explica ele — só dispunha de uma música, que foi uma que eu fiz para Clementina de Jesus e que ela acabou não gravando. Aí eu ia fazendo música e gravando automaticamente, quer dizer, fazia a música num dia, no outro fazia o arranjo e em seguida gravava. Uma, eu fiz em casa e outras, fiz no próprio estúdio da Odeon, que surgiram do próprio ambiente, gerado pela companhia dos músicos.”

“Apesar do disco ter o título de Zumbido, que é a última música que eu fiz, na verdade ela não pretende estabelecer uma linha geral para o disco. Não tive nenhuma pretensão nesse sentido.” “Talvez de todos os meus discos este seja o mais difícil de falar. Nos anteriores, como Cantando, Chorando, e mesmo o do ano passado, havia uma planificação de trabalho e eu tinha muita coisa a dizer sobre eles. Esse não, foi feito sem essa preocupação e eu o estou conhecendo pouco a pouco.”
Embora Paulinho não tivesse sido intencional na elaboração desse disco, a escolha de cada música e parceiro acabou compondo um quadro geral do que é seu trabalho hoje. “O Amor é de Lei” foi feita com Sérgio Natureza, “um bom observador da realidade nos dias de hoje”. “Coração Oprimido” é de Zorba Devagar e Walter Nunes, “um samba simples, despretensioso, que aliás foi uma coisa que eu procurei retratar no disco”. “Não Posso Negar” e “Pode Guardar as Panelas” são dois temas ligados à realidade imediata: a primeira é uma homenagem à Escola de Samba Quilombo e a segunda fala de panelas vazias, “um fato muito comum na vida brasileira”. “Foi Demais” com Mauro Duarte, a que Paulinho prefere. “Recomeçar” feita com Elton Medeiros, é a segunda experiência de Paulinho em colocar letra em uma musica já pronta.
Houve um detalhe quase espontâneo: o disco começa com “Chico Brito”, Wilson Batista / Afonso Teixeira, que até então não havia sido gravada por problemas de censura e, termina com “Zumbido”, do prórpio Paulinho que encerra o mesmo conteúdo do samba de Wilson.

UM TRABALHO DEDICADO A DUAS PESSOAS…

Paulinho conta que esse trabalho é dedicado especialmente a duas pessoas: Wilson Batista, o maior sambista brasileiro; e Heitor dos Prazeres, uma espécie de “zumbido”, “um sujeito diferente dos demais: um grande sambista, um grande conhecedor da cultura negra, uma grande figura humana.”
Na admiração, que Paulinho tem por Wilson Batista, ele revela o desejo de gravar no ano que vem, um disco só de músicas de Wilson, para ele, “um rebelde”.
Wilson ficou muito conhecido por causa de sua polêmica com Noel Rosa, e quase sempre Noel é elogiado e Wilson fica como o provocador: o inconseqüente. “Wilson era um observador muito agudo da realidade, um verdadeiro repórter de sua época. Era a verdadeira cultura popular e não essa coisa imposta que existe hoje em dia. Acho que as coisas são muito relativas na cabeça de todo mundo; é o salve-se quem puder. Não há mais tempo para estudar, pra ler; falta até tempo para o chopp, a conversa com os amigos. É só o negócio de arranjar dinheiro, essa luta incessante que leva, por exemplo, as cidades a ficarem mais violentas. Sinto que está faltando suporte para a gente”

“MARCHETERIA”, UM RECURSO DE ELIFAS ANDREATTO

É importante falar também da capa, que foi feita mais uma vez pelo Elifas Andreatto. Elifas ganhou recentemente o prêmio da Associação dos Produtores, pela capa do disco de Paulinho do ano passado. Foi um trabalho de recuperação de uma outra obra. Existe na marcenaria uma especialidade que é a “marcheteria”, o desenho feito com encaixe na madeira; uma profissão que quase não existe mais. Só os mais antigos se dedicam a marcheteria, uma arte que requer muita habilidade, muita precisão e muita paciência. Um trabalho que, hoje no Brasil, é uma raridade. E além do mais, é uma homenagem que Elifas e Paulinho consideram a um dos maiores pintores, que é o Heitor dos Prazeres. Além do especial que Paulinho fez recentemente para a Rede Tupi de Televisão, com produção de Fernando Faro, e da apresentação no Teatro Municipal, no Festival de Fim de Ano, ele já está pensando no seu próximo show, que levará o mesmo nome do disco e deve chegar a São Paulo somente no mês de maio. Nesse show mostrará um pouco mais a luta do negro sambista, mesclado com todo um trabalho de carpintaria e, aproveitará a abertura para poder mostrar algo que incomode, assim como o barulho de um zumbido.
Maria de Fátima Godoy

  1. CHICO BRITO Wilson Batista e Afonso Teixeira
  2. AMOR É DE LEI Paulinho da Viola e Sergio Natureza
  3. AQUELA FELICIDADE Paulinho da Viola
  4. CORAÇÃO OPRIMIDO Walter Nunes e Zorba Devagar
  5. PODE GUARDAR AS PANELAS Paulinho da Viola
  6. NÃO POSSO NEGAR Paulinho da Viola
  1. FOI DEMAIS Paulinho da Viola e Mauro Duarte
  2. RECOMEÇAR Elton Medeiros e Paulinho da Viola
  3. PASSEI POR ELA Álvaro Cardoso e Waldemiro de Oliveira
  4. DEIXA PRA LÁ Paulinho da Viola
  5. AMOR É ASSIM Paulinho da Viola
  6. ZUMBIDO Paulinho da Viola

Odeon ‎– 31C 062 421182, LP
Coro: Dinorah, Euridice, Zélia, Zenilda, Gordinho, Nô, Genaro e Copacabana

Arranjos, acrescidos dos impulsos criativos da rapaziada, Paulinho da Viola

Produtor fonográfico: EMI-Odeon Fonográfica, industrial e eletrônica S.A.
Direção de produção: Mariozinho Rocha
Produção executiva: Paulinho da Viola
Técnicos de gravação: Guilherme Mayrlon Bahia/Dacy
Técnicos de mixagem: Nivaldo Duarte/Franklin
Capas: Elifas Andreato

Agogô: Elizeu Felix (5), Hércules Pereira Nunes (6,11)
Baixo Elétrico: Dininho (1,2,3,4,7,9,10)
Bateria: Hércules Pereira Nunes (1,2,3,10)
Caixa de Fósforos: Chaplin (1), Paulinho da Viola (12)
Caixeta: Chaplin (10)
Cavaquinho: Paulinho da Viola (4,5,6,8,10,11)
Caxixi: Chaplin (11)
Chocalho: Chaplin (3)
Cincerro: Chaplin (3,10)
Clarineta: Copinha (1,7,9,10)
Cuíca: Marçal (4,11,12)
Flauta: Copinha (3,4,7)
Gaurá: Chaplin (10)
Omelê: Chaplin (11)
Omelê: Marçal (5,8), Chaplin (11)
Pandeiro: Chaplin (4,7), Elias Ferreira (5,8), Luna (5,9), Elizeu Felix (6)
Piano: Zé Américo (1,2,3,4,7,9,10)
Reco-reco: Elias Ferreira (5), Hércules Pereira Nunes (5,7,8,9)
Repique: Chaplin (6)
Saxofone: Copinha (2
Surdo: Gordinho (4), Chaplin (5,7,8), Elias Ferreira (6,11)
Tamborim: Hércules Pereira Nunes (1,7,12), Chaplin (2), Marçal (4,5,9,11), Luna (5,6,8), Elizeu Felix (9,11)
Tumbas: Chaplin (9,12)
Violão: Paulinho da Viola (1,2,3,4,7,9,12), Cesar Faria (5,6,8,9), Zé Américo (11)