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Calça branca de linho, camiseta da cor do céu carioca numa terça-feira azul e quente, sandália de couro e escapulário no pescoço. De mansinho, Martinho da Vila adentra a quadra da escola de samba que desde 1966 se instalou em seu coração. Com reverência de devoto, varre com o olhar o amplo espaço de pé-direito altíssimo. “É um templo”, define, antes de traçar um arco de tempo que o leva a recuar quase meio século, quando chegou à Vila Isabel atraído pela alma sonora do bairro que nos anos 1930 um poeta franzino e genial colocou no mapa do samba. “Quando vim morar na Vila, percebi que aqui Noel Rosa era deus. Respirava-se Noel em todo lugar. Decidi mergulhar na vida dele e descobri sua importância para a música, para o Rio de Janeiro, para o Brasil. Virei um fanático.”

“Antes de Noel, o samba era coisa de negros e favelados. Mesmo o Grupo de Tangarás, a que pertencia, não gostava de samba. E ele, desprovido de preconceitos, subiu o morro, bebeu na fonte, fez parcerias e trouxe o samba para baixo. O gênero evoluiu e hoje está em todas as classes sociais”, analisa Martinho.

POETA DA CIDADE (MARTINHO CANTA NOEL) , é uma homenagem na hora certa, no lugar certo, feita pela pessoa certa. Isto é: em pleno centenário, Noel Rosa ganha um tributo feito por outro ícone da Vila Isabel, Martinho da Vila.

O repertório de 14 faixas prioriza as composições que Noel fez sozinho, tanto a letra quanto a música. Por essa razão, algumas das canções não são tão conhecidas do público. A exceção, e que abre o disco, é “Filosofia“, que já foi muito interpretada por outro ícone do samba que também completa seu centenário em 2010, o paulista Adoniran Barbosa.

Mas Martinho não canta sozinho. As parcerias, aliás, não são lá muito impressionantes e privilegiam cantoras novas e as filhas – tanto as dele como a do produtor do disco, Rildo Hora. Maíra Freitas e Ana Costa são as que se saíram melhor. A experiente Mart’nália também cumpre bem seu papel no clássico “Rapaz folgado“, feita em reposta ao compositor Wilson Batista Jr. Já “Três apitos” e “Coisas nossas” ficaram um tanto quanto comprometidas.

Os arranjos e o andamento de algumas músicas são um pouco diferentes, mas ficaram bastante interessantes e Marinho da Vila conseguiu achar um bom equilíbrio entre respeitar os originais e imprimir seu próprio estilo. Ele faz a homenagem sem querer aparecer mais do que o autor e nem simplesmente copiar o que já estava gravado. Destaques para “Fita amarela“, “E não brinca não” e “Último desejo“.

Rafael Sartori

FAIXAS

(Biscoito Fino BF 881, CD)

01. FILOSOFIA
Noel Rosa / André Filho

02. MINHA VIOLA
Noel Rosa
part.: Mart’nália

03. E NÃO BRINCA NÃO
Noel Rosa

04. RAPAZ FOLGADO
Noel Rosa
part.: Mart’nália

05. SEJA BREVE
Noel Rosa

06. COISAS NOSSAS
Noel Rosa
part.: Analimar Ventapane

07. FITA AMARELA
Noel Rosa
part.: Aline Calixto

08. TRÊS APITOS
Noel Rosa
part.: Patricia Hora

09. SÉCULO DO PROGRESSO
Noel Rosa
part.: Ana Costa

10. QUANDO O SAMBA ACABOU
Noel Rosa
part.: Analimar Ventapane

11. ÚLTIMO DESEJO
Noel Rosa
part.: Maíra Freitas

12. O X DO PROBLEMA
Noel Rosa
part.: Aline Calixto

13. EU VOU PRA VILA
Noel Rosa
part.: Ana Costa

14. CIDADE MULHER
Noel Rosa