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Elizete Cardoso, 1958 – Retrato da Noite

4 maio, 2017 | Álbuns

O meu barco feito de noite singra o mar de asfalto por entre ilhas de casais. Sou marinheiro — desde menino, na indumentária dominical — e estou atento aos vagalhões desafinados, aos calháos medíocres. Peito tatuado de melodias, marinho a minha ânsia de chegar logo ao Porto Cardoso (lírico Porto da Cidade de Elizete onde se respira um ar de canções no lá dentro das tabernas) e persigo, como louco, a estrêla louca que desobedece às leis do trânsito louco do céu.

Lá, para onde vou, simplicidade é endemia. Os gestos são de mulatice, os cumprimentos acontecem no melhor ritmo de mãos e todos vivem unidos pela camaradagem da sensibilidade. Dedos longos fazem turismo nos nossos cabêlos, qualquer um pôde praticar livremente os olhares dos olhares comprometidos e — o que é importante — não há Policia de relógios para policiar a noite das noites das suas noites tão noites.

É um porto que sente. É uma Cidade que canta.

Um a um, vão chegando os barcos. Cordas de flôres servem de amarras perfumadas e os marujos de sonho invadem Elizete, sorrindo o valeu a pena da geografia navegada.

E haja taberna!

O vinho cái como um benção. A tristeza suja as mesas e resiste à umidade do pano dos garções. A marujada canta. A marujada vive a música de Elizete.

Vinicius — o francês — está presente. Também o búlgaro Braga bebe em silêncio atrás do bigode. Homero — o homem que sabe de cór o calendário marítimo — descansa as pescarias.

— “Queremos Evaldo !”
— “Queremos Evaldo !”
— “Queremos Evaldo !”

Mas, Evaldo não chega. Pegou tempestade. Seu barco partiu-se.

Evaldo não mais.

No entanto, todos invocam:

— “Queremos Evaldo !”
— “Queremos Evaldo !”
— “Queremos Evaldo !”

Sim. O meu destino é a Cidade de Elizete.

É o Porto Cardoso.

Onde os amigos se reúnem e trocam saudades.

Onde se contam histórias de mulher bonita e se discutem inofensivos absurdos.

A todo pano, portanto, vou com o meu barco feito de noite. Decifro os ventos que não me decifram, bordejo ao Sul, e, por experiência, sei que após contornar o Promotório Thedim, estarei no Porto Cardoso — onde a vida é urna eterna canção mulata!

Ricardo Galeno
contracapa do LP

FACE A

1 – ALIANÇA – Samba
(CIRO MONTEIRO – DIAS DA CRUZ)

2 – PELA ESTRADA – Toada
(NANAI)

3 – E A CHUVA PAROU – Valsa
(RIBAMAR – ESDRAS PEREIRA DA SILVA – VICTOR FREIRE)

4 – CANSEI DE ILUSÕES – Samba-Canção
(TITO MADI)

5 – POR CAUSA DE VOCÊ – Samba-Canção
(ANTONIO CARLOS JOBIM – DOLORES DURAN)

6 – BOM DIA, TRISTEZA – Samba-Canção
(VINICIUS DE MORAES – ADONIRAN BARBOSA)

FACE B

1 – NESTE MESMO LUGAR – Samba-Canção
(ARMANDO CAVALCANTE – KLECIUS CALDAS)

2 – POR ACASO – Samba-Canção
(CESAR THEDIM – NANAI)

3 – PRECE – Samba
(VADICO – MARINO PINTO)

4 – SOU IGUAL A VOCÊ – Samba-Canção
(ALCYR PIRES VERMELHO – NAZARENO DE BRITO)

5 – CONSELHO INÚTIL – Samba-Canção
(MIGUEL GUSTAVO)

6 – CONTRA-SENSO – Samba-Canção
(ANTONIO BRUNO)