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Roberto Silva, 1979

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A Personalidade do Samba – Roberto Silva, 1979

por.: Marcelo Oliveira / 14 abr, 2017
Categoria(s).: Álbuns

O apuro técnico que a simplicidade sempre esconde. A Personalidade do Samba – Com arranjos do maestro Pachequinho, volta o sambista Roberto Silva. Ele canta, nas 12 faixas, composições de Yvonne Lara, Walter Rosa, Ismael Silva, Benedito Lacerda, etc. Produção de Paulo Rocco e Talco Scaranari. Gravado nos estúdios Somil, do Rio, e no Do Ré Mi. em São Paulo. Lançamento da Copacabana.

Em recente entrevista – uma das raras que concedeu ao longo de uma carreira de mais de três décadas — Roberto Silva contou um episódio dos seus primeiros dias na Rádio Nacional (onde permaneceu, aliás, por pouco tempo: logo se transferiria para a Rádio Tupi, de cujo cast foi nome de ponta durante todo o melhor período dessa emissora, líder da chamada cadeia “associada” na fase áurea da radiofonia brasileira). Nessa rememoração, revelou que, acostumado a cantar apoiado em conjuntos regionais (formações à base de cordas e percussão, quando muito um instrumento de sopro, geralmente flauta ou clarineta), quase fracassou quando se viu no estúdio respaldado por uma grande orquestra. Salvou-o o coro, a cargo das vocalistas “As Três Marias”, que entrou no momento exato após a introdução, só conseguindo o atônito solista dar o seu recado com precisão na segunda parte do número, já refeito do impacto com que o assustara a banda de tantos metais.

Essa cena de aparente despreparo traduzia, no fundo, uma característica que sempre marcou o intérprete Roberto Silva: a simplicidade. É essa a constante do seu canto. Ele dessacraliza a interpretação. Ouvi-lo cantar é mais ou menos como assistir ao futebol de Ademir da Guia: tudo parece fácil, elementar, ainda que isso mal dissimule um apuro técnico, nos dois casos, poucas vezes alcançado. Ademir foi amplamente compreendido nos estádios, aplaudido sempre até pela torcida dos clubes adversários. Roberto Silva sempre foi entendido pelo público: continua em catálogo, vendendo às vezes como na época do lançamento, discos que ele gravou há mais de 20 anos.

ROBERTO SILVA, 1979 – A PERSONALIDADE DO SAMBA (Copacabana ‎– COMLP 25054, LP)

Selo lado B

A Personalidade do Samba, seu novo LP, é mais um desses discos. Despretensioso, traz no essencial o que o intérprete sempre ofereceu: voz bonita (talvez a mais bonita do samba, uma mistura de Ciro Monteiro com Orlando Silva), perfeito sentido de ritmo, dicção claríssima, divisão impecável. E verdade que Roberto Silva mostra aqui que não passeia mais pela escala de tons com o mesmo desembaraço, quase displicência, de LPs mais antigos. Sua voz agora demora mais nos graves, não alçando-se mais com a desenvoltura de antes. Mas é verdade igualmente que ele continua a dar, no seu estilo, verdadeiras aulas de canto (as faixas 2 e 6 do lado B, o clássico “Espelho do destino“, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, e “Felicidade não tem cor“, de Erasmo Silva e Laércio Alves, respectivamente, são exemplares nesse sentido). E em matéria de repertório mantém-se também fiel à receita que lhe garantiu a carreira toda um resultado amplamente expressivo em termos de aceitação: mescla de peças clássicas com produções novas, equilibrando também qualidade com banalidade. Roberto Silva tem voz privilegiada, mas não voa com ela. Mantém os pés na terra: nem subestima nem superestima o seu público.

Moacyr Andrade

FAIXAS (Copacabana ‎– COMLP 25054, LP)

Lado A

A TIMIDEZ ME DEVORA
(Jorginho-Walter Rosa)

EGOÍSMO
(Joacyr Sant’Ana)

ALTIVEZ
(Dengo-Antonio Gonzaga)

PRAÇA ONZE CARIOCA DA GEMA
(Eduardo de Oliveira-Silvio de Oliveira-Onildo Neves-Miro Silva)

LAMENTO DO SAMBISTA
(Vaz da Eira-Ismael Lima-Raul Marques)

NÃO POSSO MAIS
(Geraldo Barboza-Miriam Nascimento-Roberto Silva)

 

Lado B

AMOR INESQUECÍVEL
(Yvonne Lara)

ESPELHO DO DESTINO
(Aldo Cabral-Benedito Lacerda)

VALONGO
(Carlinho-Zequinha-Capoeira-Haydée)

TROUXA
(Geraldo Barbosa-Miriam Nascimento-Roberto Silva)

CASTELO SEM RAINHA
(J. Oliveira-G. Amorim)

FELICIDADE NÃO TEM COR
(Erasmo Silva-Laércio Alves)