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Angústias, devaneios, conflitos, redescobertas, aconselhamentos? Nada disso. Terapia Popular é o segundo disco-solo de Roberto Serrão, cujo repertório remete o ouvinte às concorridas rodas de samba que ele organiza há alguns anos por bares da cidade. Nele, sonho, ilusão e realidade amorosa “pintam e bordam” com o coração de Roberto Serrão. Também as homenagens, justíssimas, são um viés de delicadeza e reconhecimento a quem admira e louva.

Os arranjos foram confiados a José Roberto Leão, que se multiplica nos violões de 6 e 7 cordas, no cavaquinho, na viola caipira, na regência e na direção musical. Também aí percebe-se o tratamento adequado a cada uma das faixas. Soluções instrumentais feitas sob medida para a voz deste compositor que prima pela sobriedade na interpretação. As homenagens, justíssimas. Uma delas, ao escritor Lima Barreto, abordando o tema “O Homem Que Sabia Javanês”, samba-choro com o qual venceu o 1º Festival Temático da Casa Lima Barreto, promovido por esta instituição em 2008, e realizado no Clube da Light, no Grajaú.

As letras, a maioria plenamente integrada aos jogos dos relacionamentos amorosos, nos tiram do estresse da cidade febril e nos conduz para uma boa e suave conversa, confissões aqui, esperanças ali. Tudo posto na mesa de um bar. Se quiserem, um bar suburbano, como convém ao espírito do samba, à alma carioca.

Capa do CD: Terapia Popular - Roberto Serrão, 2012Terapia Popular está coalhado de participações bem-vindas: Nilze Carvalho absolutamente à vontade em “Camarada” (Guilherme Nascimento/Roberto Serrão), onde o sax de Dirceu Leite “costura” cada frase; Cristina Braga passeia com leveza pelas cordas da harpa oferecendo um ambiente sonoro agradável em “Livre Pra Sonhar” (Jairo Barbosa/Roberto Serrão).

 

Em “Berço Do Sonhador“, outra de Guilherme Nascimento/Roberto Serrão – aliás, Guilherme, das 15 músicas, é parceiro em seis – , a elegância de Serrão recebe toques refinados do vozeirão sedoso de Jorge Aragão, um intérprete referencial da voz brasileira que se dá muito bem em qualquer ambiente. E quando este é próprio da bossa nova, aí então… Aí então é a praia de Jorge também. Misael da Hora, aos teclados, imprime uma cadência típica do Beco das Garrafas. Fez bem. Afinal, a letras tantas, Serrão ressalta “… ♫ E nesse sonho a vida aflora / de um poema que se eterniza / na Garota de Ipanema / um presente que o poeta / deu pra gente adorar”.

A Lima Barreto e à internacional e sempre atraente Garota está o ambientalista Chico Mendes, duplamente reverenciado – por Guilherme e Serrão em “Esse Verde Tem Dono“, e por Jane Duboc, tão à vontade que a imaginamos cantando este samba em plena quadra do Cacique de Ramos, sob aquela tamarineira centenária, e a salvo de qualquer serra elétrica. Ao dividir a faixa com Serrão, ela também planta alegria de tanto frescor e sonoridade que a sua voz ecoa.

Na metade do disco, Serrão, agora sem parceiros, faz um intervalo nas pegadas do samba com “Mariana, Meu Bem“. Trata-se de uma valsa daquelas em que o compositor popular se inspira e faz para a filha, para a neta, para quem ama, com lágrimas nos olhos, coração aos pulos e alma encantada. Misael da Hora capricha no registro das cordas, cortina sonora adequada para o violão que “valseia” em acordes. Até que a gaita, digo, realejo, de Rildo Hora, outro ilustre convidado, torna Mariana, um bem de amor musical como sonhou e realizou Serrão: “♫ Mãe natureza, ao te ver, sorriu / e se inspirou para te retocar / fez do sorriso a tua saudação / e de alegria a cor do teu olhar”.

Jeitosinho“, parceria com Edmundo Souto, mostra a “familiaridade” do samba com o baião e o calango. E Dirceu Leite se esmera para um início de flauta soberana, fluente. Daí em diante, ele sublinha os versos de Serrão para o contraponto à melodia buliçosa de Edmundo. Até que o cavaquinho, jeitosinho e dissimulado, e ao sabor do craque Amendoim SP acaba se revelando o tanto de assanhado que é. Um dos bons momentos deste Terapia.

Seguem-se seis outras músicas, como o já citado “Tributo A Lima Barreto – O Homem Que Sabia Javanês“, com uma introdução definitiva do bandolim de Ricardo Calafate -, “Candongueiro Quilombola“, outra somente de Serrão que calangueia a não mais poder sob as bênçãos de Hilda e Hilton, os donos do Candongueiro, no “registro civil”: – Espaço Alternativo Livre Recreativo/Cultural Quilombo do Candongueiro, um reduto de samba e de bambas localizado lá pras bandas de Pendotiba.

Nunca É Tarde“, parceria com Noca da Portela e Sereno, e “Terapia Popular“, com Guilherme Nascimento, passeiam pelas quadras e quintais do samba carioca, particularmente os da Leopoldina, e inevitavelmente apontam como destino natural a Rua Uranos, 1.326 (Alô, Cacique!).

Depois, outra homenagem – “Valeu, Zé Kétti“, mais uma parceria com Guilherme Nascimento/Flavio Oliveira, cuja melodia sugeriu, e Serrão concordou, uma marcha-rancho com citação ao final de Máscara Negra (Zé Kétti/Hildebrando Pereira Matos).

Ah, sim, “Cadê Jandira?“, a exemplo de Terapia popular, começa chamando todo mundo pra roda com uma batucada irresistível. Nesta parceria com Toninho Nascimento, a única no disco, a percussão não brinca em serviço. Nos seus calcanhares, o acordeão de Tibor Fitel é de tirar o fôlego. E o diálogo que se estabelece entre Serrão e o coro é estimulante, de muito bom gosto, apetitoso mesmo. Serrão pergunta: “Cadê Jandira, cadê?” O coro responde: “Foi lá na feira, comprar bucho de primeira”. Serrão insiste: “Pra quê”? O coro não perde a pose: “ Preparar tripa a lombeira”.

Então, leitor, o que está esperando? Ouça (faça) esta Terapia Popular e caia no samba, na gandaia das quadras caciqueanas de todos os bairros cariocas. E com elegância, como fez e faz Roberto Serrão. Ou ame, como ele também sugere.

Jorge Roberto Martins
(Jornalista)

Na contracapa do CD Serrão agradece:

“Com a ajudo do meu “Anjo da Guarda”, a quem sou muito grato, atravessei as cinco pontes para realizar esse sonho. Que ele nos ajude a refletir e determinar que, na vida, a nossa fé tem que ser maior do que o medo de ser feliz. Estendo, ainda os meus agradecimentos a todos que, com seu incentivo e participação, engrandecem minha obra”

FAIXAS

(Produção Independente, CD)

01. Toque De Amor
(Guilherme Nascimento, Roberto Serrão)

02. Camarada
(Guilherme Nascimento, Roberto Serrão)
part. Nilze Carvalho

03. Pote Da Ilusão
(Nelson Rufino, Roberto Serrão)

04. Livre Pra Sonhar
(Jairo Barbosa, Roberto Serrão)
part. Cristina Braga

05. Tempo Voa
(Roberto Serrão)

06. Esse Verde Tem Dono (Tributo A Chico Mendes)
(Guilherne Nascimento, Roberto Serrão)
part. Jane Duboc

07. Mariana, Meu Bem
(Roberto Serrão)
part. Rildo Hora

08. Berço Do Sonhador
(Guilherme Nascimento, Roberto Serrão)
part. Jorge Aragão

09. Jeitosinho
(Edmundo Souto, Roberto Serrão)

10. Tributo A Lima Barreto ‘O Homem Que Sabia Javanês’
(Roberto Serrão)

11. Cadê Jandira
(Toninho Nascimento, Roberto Serrão)

12. Candongueiro Quilombola
(Roberto Serrão)

13. Nunca É Tarde
(Noca da Portela, Sereno, Roberto Serrão)

14. Nos Pagodes Da Vida
(Guilherme Nascimento, Roberto Serrão)

15. Veleu Zé Ketti
(Guilherme Nascimento, Flavio Oliveira, Roberto Serrão)