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Já passou mais de um ano que eu tive a minha primeira lição como produtor de discos, saindo um pouco do meu ofício, incompreendido às vezes, de analista de música popular. Durante cinco dias, de nove e ao meio-dia-e-meio, entre um conhaque e outro, trabalhei com um rapaz muito simples – humilde até, que eu havia conhecido nas andanças pelas benditas escolas de samba desta cidade: ABÍLIO MARTINS. Raul de Barros, o trombone mais puro que conheço, teve, então, uma frase que não esqueci: “o agudo dêste rapaz é uma preciosidade”. Raul pode ter-se esquecido, mas eu não. O elepê saiu, muita gente comprou. Os paulistas, ao que soube, vibraram, mas as gravadoras não compreenderam o enorme valor de Abílio.

Aí alguém lembrou o nome do sambista – um dos três mais autênticos que existem na praça — à gravadora “TROPICANA”. O resultado, amigos, está no conteúdo dêste disco que tenho o prazer de lhes apresentar. A mim, tido como um homem duro, não cabe elogiar nem os arranjos de Tranca e nem a direção musical de Jota Júnior — há dois anos apontado pela crítica como revelação de instrumentista (toca (órgão) — nem a qualidade técnica da gravação, nem a interpretação de Abílio, cantada e decantada por outros, e nem mesmo o repertório, cuja qualidade, porém. não pode deixar de ser mencionada.

Voltei“, título dêste LP, é também o nome de um samba de Oswaldo Nunes-Celso Castro, que o Carnaval de 68 aplaudiu com entusiasmo. A seleção incluiu o samba-enredo da escola Unidos de Lucas “SUBLIME PERGAMININH0“, de Milton Russo-Z.Melodia-C.Madrugada, incompreendido pela nefasta e inculta comissão julgadora do grande desfile, além de peças de extraordinário valor, como “PAREI NA SUA“, de Martinho da Vila, um dos maiores compositores dos terreiros, pertencente à Unidos de Vila Isabel; “MANGUEIRA É SAMBA“, de Hortêncio Rocha, parceiro de Zé Kéti em “Diz que Fui Por AÍ“, homem incorporado à Estação Primeira; “O CARREIRO“, de João Eudes, modesto mas eficiente compositor da Portela; “ANJINHO NO MORRO“, de João Laurindo (com Jones Santos), braço forte da Unidos de Cabuçu; “hEI DE VENCER“, do meu amigo Carlos Elias, outro portelense; “dÚVIDA” do grande Mano Décio da Viola, aqui na companhia de Arlindo Rosa; “samba da peteca“, do ex-cidadão samba Bidi e de Velha. ambos da Imperatriz Leopoldinense, além de outros sambas. todos de inegável qualidade, como “maria lavadeira” de Black Silva (com J.Domingos), “fala meu samba“, de Heitor Mangeon e Tinho, “eu não toco berimbau“, de Serrinha e Mazola, “amor em silêncio” de Amâncio Cardoso e Hércio Expedicto, e, “quanto pecado” de Raimundo Olavo.

Numa hora em que, por força de uma propaganda sob todos os aspectos mentirosa, sobrevivem autores e intérpretes sem nenhuma qualificação, atrevo-me a recomendar este trabalho de um cantor de sambas do primeiro time, ao lado de Jamelão e Roberto Silva, como uma das melhores coisas em matéria de música popular “desjazificada” produzidas este ano. Doa a quem doer.

JUVENAL PORTELLA
do “Jornal do Brasil”

FAIXAS

(Tropicana ‎– TRO/3030, LP)

– A –

1 – PAREI NA SUA – Martinho da Vila

2 – DÚVIDA – Mano Décio-Arlindo Rosa

3 – ANJINHO NO MORRO – João Laurindo-Jones Santos

4 – QUANTO PECADO – Raimundo Olavo

5 – VOLTEI – Oswaldo Nunes-Celso Castro

6 – MARIA LAVADEIRA – Black Silva-J. Domingos

7 – EU NÃO TOCO BERIMBAU – Serrinha-Mazola

– B –

1 – MANGUEIRA É SAMBA – H.Rocha

2 – HEI DE VENCER – Carlos Elias

3 – SUBLIME PERGAMINHO – Milton Russo-Z.Melodia-C.Madrugada

4 – AMOR EM SILÊNCIO – Amâncio Cardoso-Hércio Expedicto

5 – SAMBA DA PETECA – Velha-Bidi

6 – O CARREIRO – João Eudes

7 – FALA MEU SAMBA – Heitor Mangeon-Tinho